Opiniões.

Eu sou defensora do pensamento autônomo, da liberdade de opiniões, MAS, existem assuntos, realidades, que o conhecimento prévio, que o diálogo com outrem, é fundamental para emitir até uma mera opinião. Isso não anula, muito obviamente, que se pense por si mesmo, que se emita opiniões originais, não obstante, isso evita um pensamento deslocado do concreto, deslocado da história. Façamos por entender.

No que se refere o feminismo, por exemplo, o que mais se vê são opiniões. Penso que até pelo caráter contestador do movimento, afinal, colocar em cheque uma ordem social e cultural não é pouca coisa! Muita gente se incomoda e aí, dá-lhe opiniões! E geralmente tenho que ouvir: “feminismo é coisa ultrapassada”, “feminismo atualmente não faz sentido algum” e blábláblá. Algumas pessoas ainda tentam legitimar a opinião pelo simples fato de terem vivido em épocas “áureas do movimento feminista”, a exemplo da década de 70 e 80. Vejamos. Estamos em um outro momento histórico. Bem verdade que o feminismo não é mais evidente em grandes movimentos nas ruas [mas, eles existem! sim!], que tem se institucionalizado… porém, há feministas! Há feministas que lutam pela superação da cultura machista, pela igualdade de gênero. E isso por qual motivo? Porque os fatos não podem ser negados: violência contra a mulher, dupla jornada de trabalho, mutilação do corpo feminino pela indústria da beleza…  Se o feminismo pode ser identificado como o combate à opressão das mulheres e à opressão de gênero, o movimento sequer deve deixar de existir. Lembremos que a própria opressão é histórica, ela vai se modificando, se adaptando – longe de querer sustentar um status de vitimização, trata-se de desvelar os fatos.  E o feminismo assume formas históricas!

Então, hoje li um texto que me alegrou deveras. O texto fala, de um modo geral, das opiniões emitidas sobre o feminismo. Das meras opiniões dos homens sobre o movimento. E, lembremos, opinião sem conhecimento = preconceito. Pois. Achei fantástico o texto e condiz bastante com o que penso. Depois, o texto fora escrito por um professor, Idelber Avelar que, apesar de não ser ativista simpático ao movimento [pelo menos não parece] sabe fazer da sua opinião sobre o feminismo uma opinião inteligente.

Coloco abaixo o texto na íntegra.

A busca incansável por um feminismo dócil, ou, não é de você que devemos falar

Uma das coisas que aprendi sendo amigo e interlocutor de Mary W é que a própria resistência (entendida em sentido freudiano) ao feminismo é um fenômeno sociologicamente interessante, um dado a se estudar, um caso, diria a Mary, com sua sintaxe e seu uso do negrito inconfundíveis. Essa sacada dela coincide com algo que eu lhe disse certa vez durante um chope: quando homens emitem “opiniões” sobre o feminismo, elas não costumam vir embasadas em bibliografia ou sequer em escuta da experiência das mulheres narrada por elas próprias. Arma-se alguma capenga simetria entre machismo e feminismo, decreta-se que “as” feministas são isso ou aquilo e encerra-se o assunto sob viseiras, em geral acompanhado de algum choramingo contra “elas”, que são “radicais” ou “patrulheiras” (confesso que “barraqueira” eu ouvi pela primeira vez esta semana), sem que nenhum esforço tenha sido despendido na escuta do outro, neste caso na escuta da outra. Note-se, por favor (já que malentendido, teu nome é Internet), que não me refiro a uma opinião sobre tal ou qual leitura feminista de tal ou qual texto de Clarice Lispector, mas às emissões de “opinião” sobre o que “é” o feminismo. Essas, invariavelmente, são um desastre.

Essa prática sempre me pareceu espantosa, porque ninguém, nem mesmo um daqueles jornalistas mais caras-de-pau de MOSCOU, se arriscaria a ter “opinião” sobre, digamos, fenomenologia ou hermenêutica sem antes equipar-se minimamente para tanto. Todavia, sobre o feminismo, uma constelação de pensamentos, escritas e práticas políticas das mulheres não menos complexa, multifacetada, ampla e profunda que aquelas duas escolas, e sem dúvida mais influente que ambas, os homens, em geral, e com visível desconforto e pressa, acham que podem ter “opinião”, passar juízo, assim, sem mais nem menos, sem sequer dar um checada nas estatísticas de violência doméstica, estupro ou diferença salarial entre homens e mulheres ou ouvir uma feminista. Não falemos de ler alguma coisa de bibliografia, uma Beauvoir ou Muraro básica que seja. Acreditam sincera e piamente que essa sua atitude não tem nada a ver com o machismo.

Quando esses homens são confrontados por uma feminista, seja em sua ignorância, seja em sua cumplicidade com uma ordem de coisas opressora para as mulheres, armam um chororô de mastodônticas proporções, pobres coitados, tão patrulhados que são. Todos aqueles olhos roxos, discriminações, assédios sexuais, assassinatos, estupros, incluindo-se estupros “corretivos” de lésbicas (via Vange), objetificações para o prazer único do outro, estereotipia na mídia, jornadas duplas de trabalho, espancamentos domésticos? Que nada! Sofrimento mesmo é o de macho “patrulhado” ou “linchado” por feministas! A coisa chega a ser cômica, de tão constrangedora.

Desfila-se todo o rosário dos melhores momentos do sexista: como posso ser machista se tenho mãe, mulher e filha, como posso ser machista se quem passa minhas roupas é uma mulher, como posso ser machista se de vez em quando ‘divido’ o serviço doméstico com ela, como podem considerar o feminismo um elogio se o machismo é um insulto, por que as feministas ficam nos dividindo, por que as feministas ficam sendo radicais demais e a longa lista de etecéteras bem conhecida das mulheres que têm um histórico de discussão do tema. Os caras sequer são capazes de renovar os emblemas frasais de sua ignorância.

Foi o caso, nestes últimos dias, de alguns dos blogueiros autoidentificados, a partir de um encontro recente em São Paulo, como “progressistas” (não está muito claro de onde vem nem para onde vai esse “progresso” nem em que consiste o “progredir”, mas é evidente que sou ferrenho defensor da primazia da autoidentificação: que cada um se chame como gosta, contanto que me incluam fora desta; este é um blog de esquerda). O progressismo blogueiro é visivelmente masculinista, e que ele reaja com tão ruidosa choradeira ao mero aflorar de uma crítica feminista é só mais uma óbvia confirmação do fato.

O acontecido já foi relatado por Cynthia SemíramisLola Aronovich, e só me interessa aqui como sintomatologia do blogueiro progressista que faltou à aula em que o feminismo explicava em detalhe como o pessoal está imbricado com o político, como a apropriação e a simultânea desqualificação do trabalho das mulheres têm sido componentes históricos de uma hierarquia de gêneros que se impõe com tremenda brutalidade. O blogueiro progressista provavelmente nem notou que o Jornal Nacional mais uma vez se permitiu comentários sobre a aparência de Dilma que jamais se permitiria sequer sobre Lula. Mas a Marjorie Rodrigues notou.

Uma das características do masculinismo progressista é sua tremenda dificuldade em entender a lição de Ana que, escrita num contexto de discussão do racismo, também se aplica aqui: não é sobre você que devemos falar. Não é sobre seu umbiguismo, não é sobre seu desconforto, não é sobre a sua necessidade de que as feministas sejam dóceis (ou não “divisionistas”) o suficiente para que possam carimbar e avalizar o seu tranquilizador atestado de boa consciência. Pra isso o Biscoito Fino e a Massa recomenda outra coisa: psicanálise freudiana. No Brasil de Lula e Dilma, já não é coisa tão cara, pelo menos para a maioria dos que leem esta bodega.

O progressismo blogueiro refletiu pouco, me parece, sobre como até suas referências a si próprio estão encharcadas de sexismo. O encontro progressista em São Paulo (que contou com interlocutores e amigos meus, que foi uma bela iniciativa à qual fui convidado, e a cuja continuação eu desejo sucesso) foi, em várias ocasiões, apresentado por seus principais protagonistas, quase todos homens, como “o” encontro de blogueiros, “o primeiro encontro” nacional, “a primeira grande” reunião.

Ora, o que isso tem a ver com o sexismo?

O progressismo blogueiro formado por homens jornalistas oriundos da grande mídia ou pautados por ela desconhece tanto a história de blogolândia que, como diria Macedonio Fernández, se a desconhecesse um pouquinho mais, já não caberia nada. Isso não seria problema se ele não tivesse a pretensão de falar em nome de uma totalidade “progressista”. A primeira pessoa levada a um portal por seu trabalho em blogs foi uma mulher, Daniela Abade. A primeira vez que em um livro foi vendido via blogs aconteceu também num blog feminino, o Udigrudi. Talvez a mais massiva troca de experiências e formação de comunidade num livro de visitas de blog ocorreu pelo trabalho de duas mulheres feministas. Refiro-me ao Mothern de Laura Guimarães e Juliana Sampaio, que também representou a primeira vez em que um blog virou série de televisão. A mais longeva comunidade blogueira em atividade na rede provalvemente é a do imperdível Drops da FalCynthia Semíramis, a feminista cujo texto-resposta foi recusado no espaço que transformou “feminazi” em post, tem mais história na rede que qualquer das lideranças masculino-jornalístico-progressistas (é coautora, por exemplo, de umtexto clássico sobre a questão jurídica na internet). De Marina W aCláudia LettiMeg Guimarães, há uma história de pioneirismo de mulheres em blogolândia que se deveria conhecer com mais interesse e humildade, se é que a palavra “progressista” vai preservar ainda um farrapo de relação com alguma experiência que possa ser chamada de emancipatória.

Confesso que sinto um pouco de vergonha alheia quando vejo blogueiros progressistas referindo-se ao seu (notadamente importante, sublinhe-se) encontro como “o” encontro de blogueiros ou como “a primeira” reunião ou a si próprios como “os” progressistas. Tudo isso enquanto ignoram completamente a história que lhes precede, na qual o protagonismo feminino é indiscutível. Na história que lhes é contemporânea, o protagonismo feminino não é nada desprezível tampouco, mas também a ignoram.

O jornalismo masculino progressista não apenas desconhece essa história. Ele não parece interessado em conhecê-la, não suspeita que familiaridade com ela problematizaria alguns elementos de sua prática. Fazendo tantas referências adâmicas a si próprio, contribui para a invisibilização e o silenciamento da história de blogolândia construída pelas mulheres. Daquele jeito convicto bem próprio dos ignorantes em denegação, o blogueiro jornalista-progressista jura que isso que não tem nada a ver com o machismo. Provavelmente ele não também não se perguntou se essa invisibilização terá algo a ver com vícios oriundos de 100 anos de um modelo em que jornalistas, quase sempre homens, falavam, na maioria das vezes sobre assuntos que domina(va)m assombrosamente mal, e leitores e leitoras recebiam calados.

Caso o jornalismo blogueiro masculino progressista tenha inteligência, humildade e decência, escolherá escutar o que sobre o feminismo disseram as próprias feministas. A bibliografia não é exatamente pequena. Sempre se pode começar com O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, passar à Mística Feminina, de Betty Friedan, chegar a Problemas de Gênero [pdf], de Judith Butler, escolhendo, no caminho, mil outras veredas possíveis. Pessoalmente, sou fã da polêmica que se dá entre as feministas materialistas britânicas, em que uma teoria mais funcionalista das relações entre opressão de classe e opressão de gênero se enfrenta com uma teoria entitulada “sistemas duais”, que argumentava pela independência relativa entre capitalismo e patriarcado (embate sociológico dos bons, nos quais nunca, claro, se fixa uma conclusão, mas durante os quais se exploram hipóteses interessantes). Essa polêmica está apresentada num livro de Michelle Berrett, intitulado Women’s Oppression Today, que seria uma ótima pedida traduzir. De Patrícia GalvãoRose Marie Muraro, é possível informar-se, um pouquinho que seja, sobre a história no Brasil.

Ninguém é obrigado a ser inteligente o tempo todo, mas quando se trata deaprender a escutar, humildade e decência costumam ser as duas qualidades mais importantes da trinca.


 

3 Respostas para “Opiniões.”

  1. O feminismo assim como a sociedade passa por uma tras-formação, o problema é que muitos segmentos (pessoas, estado, a própria sociedade, religião, família) não tenta acompanhar por mero tradicionalismo e assim se reconfigurar.
    As relações humanas estão se estruturando totalmente diferente de 10 anos atrás, são perspectivas de avaliações que vão recriando valores, normas e “mentalidades”. Basta sabermos que “tipo humano” (para falar nietzschianamente) estamos querendo configurar, porque querendo ou não de uma coisa sabemos, educamos para uma “determinada perspectiva” e o problema se torna aí. Queremos controlar o desiguais e in-diferentes , observando o desenrolar da nossa história é dessa forma que se tornou “mais fácil” dar conta de diferentes valores, culturas. Mas aqui há a ideia do CONQUISTADOR, o “eu Macho”.
    No inicio se pensou e efetuou a domesticação a brasa e ferro, e agora caminhamos para a uma “domesticação” mais informatizada, intelectualizada e tecnologica claro ( há avanços possitivos sim), mas em muitas vezes os “segmentos de resistências” são “visibilizados” para serem “codificados” e daí ministrado e “controlados” de perto por outras perspectivas avaliativas dominantes e que se dizem “abertas” ao novo.
    É preciso também estarmos acordados para enchergar que muitos estão usando roupas de outrem que não o cobrem totalmente, mas desvela uma ideia repreensiva e dominadora. Mas falemos docilmente, voz suave e encantadora, para ouvidos brutalizados e cheios de “academicismo”.

    ***** Carla gostei da sua reflexão, até a proxíma…

  2. ótimo texto. não estava sabendo do babado, li agora, que confusão!

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