uma análise crítica da manifestação em solidariedade à luciana lopo

manifestação em 07 de julho

manifestação em 07 de julho

O sexismo é subjacente à estrutura social, e uma das formas em que se exterioriza é através da chamada “violência contra a mulher”. Enquanto estrutural, o sexismo constitui modo de se posicionar frente ao mundo e às coisas, estruturando o modo de agir e de se comportar das pessoas – homens e mulheres – que vivem nessas sociedades.

A violência contra a mulher deve ser compreendida, portanto, em seu caráter sexista que a torna singular frente a outros tipos de violência. Ela tem suas bases na construção social dos gêneros, onde a agressividade, entre outras características, é imputada aos homens, e o masoquismo e altruísmo, às mulheres. Enquanto tal, “A violência sexista é um dos recursos fundamentais para a manutenção da dominação-exploração das mulheres e para submetê-las a situações que contrariam seus desejos.” [1]

Em 07 de julho deste ano, foi realizada uma manifestação em solidariedade à Luciana Lopo, organizada pelo Fórum de Mulheres de Lauro de Freitas. Esta foi uma entre tantas vítimas de violência por parte do conjugue, mas que adquiriu grande repercussão na mídia devido às técnicas empregadas: tortura com leite quente, ingestão de fezes e um tiro na vagina de Luciana.[2] O ato ocorreu na Praça da Piedade, e, posteriormente, em frente ao prédio da Secretaria de Segurança Pública.

A palavra de ordem foi contra a impunidade e pelo cumprimento da lei Maria da Penha. Ou seja, não estava sendo pautado que os atos de violência sexista tivessem fim, mas, antes, que fossem devidamente punidos – punição essa buscada no aparato do Estado, e mais precisamente no delegado e chefe da Polícia Civil, Joselito Bispo, cuja presença foi requisitada pelas manifestantes. As falas são significativas:

Nós vamos continuar nos manifestando para evitar que este crime caia no esquecimento como aconteceu com tantos outros. A simbologia de Luciana Lopo é de representar todas as vítimas de violência na Bahia. Precisamos lutar para que ele seja julgado o mais rápido possível. Que a Justiça não permita que Adalberto e nenhum outro agressor de mulheres fique impune.” (Suli Nascimento, do Fórum de Mulheres de Lauro de Freitas)[3]

“É fundamental o grito das mulheres contra a impunidade. Precisamos falar para a cidade sobre a questão da violência doméstica. O caso de Luciana não pode ser tratado como um caso isolado. Precisamos fortalecer o movimento para que mais mulheres possam ter coragem de denunciar a violência.” (vereadora Olívia Santana (PCdoB)[4]

Consistia, portanto, numa manifestação previsível[5] pelo status quo onde nos dirigíamos até o poder estatal, para pedir pelo cumprimento de uma lei que, por sua vez, busca reparar um comportamento estrutural cujas raízes estão no processo de socialização que caracteriza o patriarcado e que não podem ser “revogadas” por meio de pedidos.

Concordo com o coletivo CrimethInc, quando coloca a seguinte crítica a tal formato de manifestação, aonde o formalismo e monotonia prevalecem e afastam novas pessoas da “causa”:

Chega de manifestações previsíveis que as autoridades sabem muito bem como lidar; chega de protestos rituais maçantes que não sejam um modo emocionante de gastar uma tarde de sábado. Essas enfadonhas manifestações claramente não nos levarão a lugar nenhum. Nunca mais devemos ‘nos sacrificar pela causa’. Porque nós mesmos, a felicidade em nossas próprias vidas e na vida de nossos companheiros deve ser a nossa causa![6]

Talvez seja este um dos motivos pelos quais a presença de jovens entre as pessoas presentes fosse tão pequena. Por “não sacrifício” não se deve entender “não combatividade”, mas a transformação das ações políticas em experiências interessantes e enriquecedoras, que superem o modelo apitaço + gritos-de-guerra + faixas-que-ninguém-vai-ler. Com isso quero deixar clara a urgência de se buscar novos modos de se manifestar e expressar o repúdio ao sexismo, modos combativos e interessantes.

manifestação
manifestação

No entanto, a manifestação foi positiva no sentido de publicizar uma oposição à prática da violência sexista, de modo a demonstrar que nós, mulheres feministas, existimos e, à despeito do conformismo reinante, não vemos o feminicídio como uma simples prática banal e rotineira que por isso deve passar desapercebida, mas, antes, estranhamos o que é tido como familiar e cotidiano a fim de torná-lo uma questão política.


[1] http://www.sof.org.br/inst_area_atua_fem_dicion.htm#voilenciaSexista

[2] A repercussão me faz pensar na existência de um “nível de violência socialmente aceito” – o qual teria sido ultrapassado no caso Luciana Lopo.

[3] Retirado da reportagem: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=59318

[4] Idem.

[5] A praça aonde foi realizada a manifestação é rotineira e semanalmente alvo de atos do tipo.

[6] Retirado do texto “Reconheça, a sua política é um puta saco!”: http://deriva.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=41&Itemid=69

Por Íris N. do Carmo

5 Respostas para “uma análise crítica da manifestação em solidariedade à luciana lopo”

  1. carlarrrr vanessa Diz:

    é isso iris: está na hora de uma práxis política diferente. CRIATIVA e que não esteja ‘dependente’ da representação juridica do Estado e etc. sabemos o quão essa representação é excludente e limitadora – além de previsível.
    bacana o texto!

    rapaz, você é estruturalista msm! hehehehehe
    eu sou pática ao pós-estruturalismo tbm! mas não sou pós-moderna – se é que me entendes! :p

  2. Yes!!!!

    Existe varias Lucianas agredidas todos os dias…
    precisamos de uma prática feminista diferente ,invadir todos os espaços
    destruir o sexismo e o patriarcado.

  3. huhuuul! jogou duro ae no texto… essa parada de combater a chatice eh dificil pra porra!

  4. “O SCUM não fará piquetes, manifestações, marchas ou greves para
    atingir seus objetivos. Essas táticas são usadas por senhoras
    amáveis, finas, que adotam apenas esse tipo de ação, pois
    garantidamente são ineficazes. Além disso, só as mulheres masculinas
    decentes, de vida honrada, altamente treinadas em submergir na
    espécie, agem na base da multidão. O SCUM é composto de indivíduos,
    não é uma multidão, uma bolha. Em qualquer situação, só será
    empregado o número de militantes do SCUM necessário à sua
    realização. Além disso o SCUM, sendo tranqüilo e egoísta, não se
    sujeitará a levar uma cacetada na cabeça, dada por um policial. Isso
    acontece com senhoras amáveis da classe média, “privilegiadas e
    educadas”, que valorizam muito a tocante fé na bondade inerente do
    papai e dos policiais. Se o SCUM alguma vez marchar, será sobre a
    cara idiota e nauseante do presidente.”

  5. [...] e, posteriormente, em frente ao prédio da Secretaria de Segurança Pública. Foi publicada aqui uma análise crítica dessa [...]

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