A onipresença da cor rosa no universo das meninas

Posted in 1 on Dezembro 30, 2009 by rodrigo77

Vivemos de forma tão desenfreada, corrida etc e tal, que terminando descuidando da nossa visão sobre as coisas. Além dessa pressa toda, nós humanos somos um tanto mimados em relação a agrados e desagrados, principalmente pela forma que vivemos, buscando o conforto cada vez mais e em suas mais variadas formas. Costumamos, algumas pessoas mais que outras, descartar ou fugir dos desagrados, mesmo que venham nos beneficiar mais adiante. Política é chato, discutir é chato, mostrar como ou porque algum costume ou tradição nos prejudica é chato. Mas tem quem dê importancia e prefira esse caminho mais distante de ser agradado, mais recompensante, talvez (apesar de minhas restrições sobre buscas por recompensas, mas isso já é assunto pra outra discussão).

É isso, esse blog além de informativo, também traz essa possibilidade de exercitarmos nosso lado questionador, reflexivo, através da leitura em si e principalmente, quem sabe, das discussões seguintes nos comentários. Não deixem de comentar.

Todo esse falatório, foi pra fazer uma introdução e apresentar uma matéria feita pela Folha Online que recebi por email e achei muito válido e que me deixou super contente, por representar o que penso a respeito e muito mais:

Mães combatem “ditadura do rosa” imposta às meninas

Duas mães inglesas declararam guerra ao que chamam de “rosificação” –a onipresença da cor rosa no universo das meninas–, um fenômeno relativamente recente que vai além da cor e que, segundo elas, limita as aspirações das pequenas.

Emma e Abi Moore, duas irmãs gêmeas de 38 anos, lançaram a campanha no blog PinkStinks (Rosa é uma droga) em 2008 para desafiar a cultura do rosa baseada na beleza, em detrimento da inteligência, que é imposta às meninas praticamente desde o berço.

“Queremos abrir os olhos das pessoas para o que está se passando no marketing dirigido às crianças”, explica Emma Moore, que critica duramente a tendência rósea que vai da moda até os brinquedos. “Queremos que as meninas saibam que podem ser tudo que quiserem ser, independente dos que os fabricantes queiram vender para elas.”

As empresas investem 100 bilhões de libras (US$ 160 bilhões) anuais apenas no Reino Unido em publicidade para conquistar o lucrativo mercado das crianças, ávidos consumidores futuros, segundo um estudo governamental publicado na semana passada.

Basta entrar em qualquer loja de brinquedos para perceber a monocromia que reina nas seções para meninas. O rosa não é apenas a cor das bonecas e fantasias de princesa, mas também das bicicletas, telefones e até mesmo brinquedos até então unissex.

“Isso nem sempre foi assim. Nos anos 70, quando crescemos, o Lego era apenas o Lego, com todas as cores”, afirma Emma. “Agora o Lego para as meninas é rosa e tudo gira em torno de cavalos alados e fadas. Isso não é natural.”

Também existem versões cor de rosa do jogo de palavras Scrabble, com a palavra “fashion” (moda) formada na tampa da caixa, e do Monopoly (Banco Imobiliário), onde as casas e hotéis foram substituídos por lojas e shopping centers.

Segundo as militantes, até pelo menos a Primeira Guerra Mundial o rosa era a tonalidade dos meninos, enquanto o azul claro era considerado mais apropriado para as meninas. Para elas, a “rosificação” extrapola a cor.

Os brinquedos para as meninas reproduzem em sua maioria atividades consideradas femininas, como o cuidado de bebês, a limpeza da casa e cuidados com a beleza, o que incute nelas cada vez mais a atual “obsessão pela imagem”.

“Muitos desses produtos parecem bastante inofensivos, mas se somam a essa cultura de celebridade, fama e riqueza, que está danificando as aspirações das meninas sobre o que podem ser”, assinala Emma.

A campanha, que conta com milhares de seguidores no Facebook, gerou polêmica no Reino Unido, onde um jornal classificou as irmãs Moore de “feministas severas e sem senso de humor”.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u670032.shtml

Pequeno Testemunho

Posted in 1 with tags on Dezembro 28, 2009 by irisnery

Segue abaixo mais uma tradução. Dessa vez trata-se de um pequeno artigo, hospedado no site do coletivo feminista Mujeres Creando, da Bolívia, e que realiza com maestria o velho lema feminista: o pessoal é político. Agradeço à Paula pela tradução e sugestão. Esperamos que seja, para vocês, uma leitura tão impactante quanto o foi para nosotras!

Pequeno Testemunho

Por: E.M

A base sobre a qual se controe minha família é o machismo… minha pequena e rompida família que às vezes só faço evitá-la…

Queria poder algum dia gritar o que sinto cada vez que meu pai senta e espera que sua esposa (minha mãe) o sirva, como se fosse sua empregada, ao invés de sua companheira; às vezes não suporto que ela permita ser tratada assim, ela não é menos que ninguém: dedicou toda sua vida para dar-me uma educação digna, enquanto o vagabundo do meu pai ficava sentado esperando a hora do almoço vendo tv, para logo depois voltar a essa rotina repugnante… uma vez pintei meu pai como um herói… me arrependo muito disso, não quero que meu herói seja alguém que acredita que nós, mulheres, só servimos para a cozinha.

A mentalidade machista também está em minha mãe, tem medo do “que diriam” se realizasse o divórcio, porém tem vergonha do meu pai… gosta de viver nas sombras e diz que é feliz, lhe espantam xs filhxs fora do casamento, e mais, lhe espanta o sexo fora do casamento…

Em troca, o casamento me espanta.

Tenho medo de que quando forme minha família, esta seja exatamente igual a que tenho… rompida.

Digo rompida, porque a única coisa que temos em comum é que vivemos na mesma casa e minha mãe nos mantém, ainda que agora meu pai tenha trabalho, porém o que ganha gasta em comprar presentes para seu filho (meu irmão) e se dedicam a perder o tempo juntos, em troca minha mãe tem que cuidar de tudo apenas com seu mísero salário, às vezes não dorme, escuto-a chorar porque tem dívidas, porque ninguém lhe ajuda, por isso consegui trabalho, a menos quero ser eu a lhe dar uma mão, e que não continue com isto sozinha…

Me dói ver o rosto de minha mãe, machucada, tendo o coração partido por causa de meu pai e meu irmão, os dois são iguais.

Minha mãe paga a “educação” de meu irmão, que não vai às aulas e já perdeu 2 anos no colégio… ela chora porque quer que ele tenha um futuro e para ela isso significa estudo, que seja alguém e não um vagabundo como meu pai…

Eu estudo por mim e por ela… quero poder algum dia levá-la longe para que desfrute da vida sem ter que ser empregada de ninguém… e porque também não quero terminar tendo que aguentar uma família rompida como a minha… quero confiança, respeito, amor…

Fujo de minha família porque sei que se continuo tentando salvá-la vou terminar lavando pratos sujos, e o que quero é ser eu, ainda que tenha que lutar por isso começando em casa, ainda que meu pai não acredite em mim, nunca o fez, porém eu ainda assim pude, e sei que posso… quero ir adiante, terminar meus estudos e algum dia poder ser independente, quero lutar com minha mãe, mas não quero submeter-me como ela, só quero ser livre…

Tradução por Paula Oliveira

Revisão por Íris N. do Carmo

Anarquismo: o que realmente significa? – Emma Goldman

Posted in 1 on Dezembro 21, 2009 by Antonio Henrique

Aqui estou eu para cumprir o prometido no último post. Leiam o texto, comentem e apontem todos os possíveis erros e partes confusas da tradução.

Assim como o “Armadilha da proteção”  Emma Goldman neste texto encontra-se feroz e muito poética. Por mais breve que seja o texto acredito que ele possa ser lido facilmente como uma introdução básica ao anarquismo. Ela não entra em pormenores relativos a história do anarquismo nem numa discussão profunda com outros autores, mas apresenta de maneira muito bela o que é Anarquismo para ela.

Em todos os textos que já li da Emma acho que o  mais vale destacar é o debate que ela sempre levanta entre a relação do coletivo com o indivíduo, em certa medida a autora estabelece nesse debate uma noção de individualismo que não degenera para uma perspectiva utilitarista burguesa e que consegue facilmente se conciliar com o coletivo, juntanto de forma genial revolução coletiva e revolução individual, distinguindo-se fortemente das tendências hegemonicas da esquerda do ínicio do século XX.

A proxima tradução será de mais um texto da Goldman, então se você gosta dela e tem se interessado por essas traduções, fique de olho e acompanhe o blog. Será um texto onde a Goldman comenta o movimento feminista de sua época.

Anarquismo: o que realmente significa?

Emma Goldman

A história do crescimento e desenvolvimento humano é ao mesmo tempo a luta terrível de novas idéias anunciando a chegada de um novo e brilhante amanhecer.  Em sua obstinada persistência na tradição, o velho, com seus meios mais cruéis e repugnantes, pretende impedir o advento do Novo, qualquer que seja a forma e o período em que ele se manifeste. Tampouco necessitamos retraçar nossos passos até o passado, a fim de nos darmos conta da enorme oposição, dificuldades e adversidades postas no caminho de cada idéia progressista. A tortura, a tuerca[1]e o chicote permanecem conosco; assim como o traje do convicto e a ira social, tudo conspirando contra o espírito que vai marchando serenamente.

O anarquismo não pode ter a esperança de escapar do destino de todas as demais idéias inovadoras. Evidentemente, como o inovador de espírito mais revolucionário, o Anarquismo necessariamente deve se deparar com a ignorância e a envenenada repulsa do mundo que pretende construir.

Para refutar, ainda que de maneira sucinta, tudo o que está sendo dito e feito contra o anarquismo, seria necessário um livro inteiro. Portanto rebaterei somente duas das principais objeções. Ao assim fazer, tratarei de esclarecer o que verdadeiramente quer dizer Anarquismo.

O estranho fenômeno da oposição ao Anarquismo é o que trás à luz a relação entre a chamada inteligência e a ignorância. E isto não é tão estanho quando consideramos a relatividade de todas as coisas. A massa ignorante tem em seu favor a pretensão de não simular conhecimento ou tolerância. Atuando, como sempre faz, por puro impulso, suas razões são como as das crianças – “Por quê? Porque sim.” Ainda assim a oposição que o não educado faz ao Anarquismo merece a mesma consideração que a do homem inteligente.

Quais são, então, as objeções? Primeiro, o Anarquismo não é praticável, ainda que seja um ideal bonito. Segundo, o Anarquismo equivale a violência e destruição, por isso deve ser refutado, por ser vil e perigoso. Tanto o homem inteligente como a massa ignorante julgam, não a partir de um conhecimento profundo, mas de rumores e falsas interpretações.

Um esquema prático, diz Oscar Wilde, é um que já tem existência ou que poderia ser levado a cabo sob as condições existentes; mas são exatamente essas as condições que o objeta e qualquer propósito que pudesse aceitá-las, necessariamente é incorreto e uma loucura. O verdadeiro critério do prático, portanto, não é se pode manter intacto o incorreto e imprudente; até certo ponto consiste em averiguar se o esquema tem a vitalidade suficiente para abandonar, deixar para trás, as águas estancadas do velho e edificar, na medida em que sustenta uma nova vida. À luz desta concepção, o Anarquismo é definitivamente prático. Mais que nenhuma outra idéia, ajudando a acabar com todo erro e tolice; mais que nenhuma outra idéia, está edificando e sustentando uma nova vida.

As emoções do homem ignorante se vêem continuamente apaziguadas pela história sangrenta do Anarquismo. Não há nada demasiadamente ofensivo para ser empregado contra esta filosofia e seus expoentes. Portanto o Anarquismo representa pra o não-pensante, o que o homem proverbial malvado é para uma criança – um monstro obscuro empenhado em engolir-lhe todo; em poucas palavras, destruição e violência.

Destruição e violência! Como poderá saber o homem ordinário que o elemento mais violento da sociedade é a ignorância; que seu poder de destruição é justamente o que o Anarquismo está combatendo? Ele não está ciente de que as raízes do anarquismo são partes das forças naturais e destroem não as células saudáveis, mas o crescimento parasitário, que se nutre da mesma essência da vida social. Está meramente livrando o solo de erva-daninhas e arbustos para eventualmente produzir frutas saudáveis.

Alguém disse que se requer menos esforço mental para condenar, do que se requer para pensar. A indolência mental difundida mundialmente, tão prevalecente na sociedade, nos prova uma vez mais que este feito é muito acertado. Em vez de ir ao significado de qualquer idéia dada, para examinar sua origem e razão de ser, a maioria das pessoas a condenarão inteiramente, ou dependerão de definições de aspectos não essenciais e superficiais ou cheias de prejuízos.

O Anarquismo encoraja o homem a pensar, a investigar, a analisar cada proposição; mas para não pressionar o leitor médio começarei com uma definição e então por último elaborarei.

ANARQUISMO: a filosofia de uma nova ordem social baseada na liberdade sem restrição, feita da lei do homem; a teoria de que todos os governos descansam sobre a violência e, portanto, são equivocados e perigosos à medida que também são desnecessários.

A nova ordem social descansa, evidentemente, na base materialista da vida, mas enquanto todos os anarquistas concordam que o mal atual é um mal econômico, mantém que a solução dessa maldade pode ser conseguida somente sob a consideração de cada fase da vida – individual, a medida que também coletiva; interna, a medida que também a fase externa.

Um escrutínio a fundo na história do desenvolvimento humano descobrirá dois elementos em um amargo conflito, um contra o outro; elementos que agora começam a ser entendidos, não como estranhos entre si, mas como estreitamente relacionados e verdadeiramente harmoniosos, se são colocados em ambientes próprios: os instintos individuais e os sociais. O indivíduo e a sociedade travaram uma guerra implacável e sangrenta pela supremacia, porque ambos estavam cegos diante do valor e da importância do outro. Os instintos individuais e sociais – o primeiro, o fator mais poderoso para a iniciativa individual, seu crescimento, suas aspirações e auto-realização; o segundo, um fator igualmente importante para a ajuda mútua e o bem-estar social.

Não se está longe de encontrar a explicação para a tormenta atroz dentro do indivíduo, e entre este e seu meio. O homem primitivo, incapaz de entender seu ser, menos ainda a unidade de toda a vida, se sente absolutamente dependente de forças cegas e escondidas, sempre preparados para ridicularizar e provocar-lhe. Destas atitudes cresceram os conceitos religiosos do homem como uma mera partícula de pó, dependente dos poderes supremos e elevados que só podem ser satisfeitos através da submissão à sua vontade. Todas as sagas precoces sobre esta idéia, que continuam sendo o Leitmotiv das histórias bíblicas que lidam com a relação do homem com Deus, com o Estado e a sociedade. Outra vez o mesmo motivo, os homens não são nada e os poderes são tudo. Então, Jeová somente tolerará o homem que manifeste a condição de entrega completa. O homem pode ter todas as glórias da terra, mas não poderá ser consciente de si mesmo. O Estado, a sociedade e as leis morais, todas cantam o mesmo refrão: o homem pode ter todas as glórias da terra, mas não poderá ser consciente de si mesmo.

O Anarquismo é a única filosofia que devolve ao homem a consciência de si mesmo, a qual mantém que Deus, o Estado e a sociedade não existem, que suas promessas são vazias e inválidas, já que podem ser efetivadas somente através da subordinação do homem. O Anarquismo, portanto, é o maestro da unidade da vida, não meramente na natureza, mas também no homem. Não há conflito entre os instintos sociais e individuais, não mais do que existem entre o coração e os pulmões: o primeiro é o receptáculo da essência pura e preciosa da vida, o outro é o armazém do elemento que mantém a essência pura da vida social. O individual é o coração da sociedade, conservando a essência da vida social; a sociedade é o pulmão que está distribuindo o elemento para manter a essência da vida – ou seja, o individuo – puro e forte.

“A única coisa de valor no mundo,” disse Emerson, “é a alma ativa, a qual todo homem tem dentro de si. A alma ativa vê a verdade absoluta, a proclama e a cria.”[2] Em outras palavras, o instinto individual é a coisa de valor do mundo. É a alma verdadeira que visualiza e cria a vida de verdade, da qual sairá uma verdade maior, a alma social renascida.

O Anarquismo é o grande libertador do homem frente aos fantasmas que deteve-lhes preso; é o árbitro e o pacificador das duas forças para a harmonia individual e social. Para conseguir esta unidade o Anarquismo declarou guerra às influências perniciosas, as quais, até agora impediram a harmoniosa unidade dos instintos individuais e sociais, do indivíduo e da sociedade.

Religião, a dominação da mente humana; Propriedade, a dominação das necessidades humanas; Governo, a dominação da conduta humana, representa o baluarte da escravidão do homem e dos horrores que lhe exige. Religião! Como domina a mente do homem, como humilha e degrada a alma dele. Deus é o todo, o homem não é nada, diz a religião. Mas, desse nada, Deus cria um reino tão déspota, tirano, cruel, terrível, que nada que não seja desastre, lágrimas e sangue reinam no mundo desde que os Deuses surgiram. O Anarquismo impeli o homem a se rebelar contra esse monstro negro. Quebre seus grilhões mentais – fala o Anarquismo ao homem – pois não vai ser livre até que pense e julgue por si mesmo, e deixará o domínio da obscuridade, o maior obstáculo para todo o progresso.

Propriedade, a dominação das necessidades do homem, a negação do direito de satisfazer suas necessidades. O tempo nasceu quando a propriedade reclamou seu direito divino, quando veio para o homem com o mesmo refrão, igual o da religião, “sacrifica-te! abnega-te! entrega-te!”. O espírito do Anarquismo elevou o homem de sua posição humilhada. Agora ele está de pé, se faz cheio de luz. Aprendeu a ver a insaciável, devoradora e devastadora natureza da propriedade e está preparando-se pra dar o golpe de morte ao monstro.

“A propriedade privada é um roubo”, disse o grande anarquista francês Proudhon. Sim, mas sem risco e perigo para o ladrão. Monopolizando os esforços acumulados pelo homem, a propriedade lhe retirou de seu direito de nascimento transformando-lhe em um indigente e um pária. A propriedade nem sequer colocou a desculpa tão gasta de que o homem não crê o suficiente para satisfazer suas necessidades. Apenas aprendendo o ABC da economia, os estudantes já sabem que a produtividade do trabalho durante as últimas décadas excede em muito a demanda normal. Mas o que são demandas normais para uma instituição anormal? A única demanda que a propriedade reconhece é seu próprio apetite guloso para maior riqueza, porque riqueza significa poder, o poder de submeter, oprimir, explorar, o poder de escravizar, de ultrajar e degradar. A América se mostra orgulhosa de seu grande poder, sua enorme riqueza nacional. Pobre América, de que vale toda riqueza se os indivíduos que a compõem são miseravelmente pobres? Vivendo na podridão, na sujeira e no crime; perdida a esperança e alegria, perambula um exército exilado de presas humanas sem casa.

Geralmente se considera, que ao menos que as ganâncias de qualquer negócio excedam seu custo, a bancarrota é inevitável. Mas aqueles comprometidos no negócio de produzir riqueza não aprenderam nem esta simples lição. Cada ano o custo da produção da vida humana está crescendo mais (50.000 assassinados, 100.000 feridos na América no ano passado); os retornos para as massas, que ajudam a criar a riqueza, estão se reduzindo ainda mais. A América ainda continua cega sobre a bancarrota inevitável de nosso negócio de produção. Nem é este o último e único crime. Por enquanto o mais fatal dos crimes é o de converter o produtor em uma mera engrenagem de uma máquina, com menos desejo e decisão do que seu mestre de aço e ferro. Do homem está sendo roubado não apenas o produto de seu trabalho, como também o poder de livre iniciativa, de originalidade e o interesse ou desejo pelas coisas que estão fazendo.

A verdadeira riqueza consiste em objetos de utilidade e beleza, em coisas que ajudem a criar corpos fortes e preciosos, e meios estimulantes de vida. Mas se o homem está condenado a enrolar algodão ao redor do parafuso ou cavar carvão durante trinta anos da sua vida, não há de se falar em riqueza. O que dá ao mundo são coisas horríveis e sujas, reflexo de sua chata e tediosa existência – muito débil para viver e muito covarde para morrer. É estranho dizer, há muitas pessoas que exaltam o método mortal da produção centralizada como a realização de maior orgulho da nossa era. Eles falham absolutamente ao imaginar que se continuarmos na docilidade mecânica, nossa escravidão será mais completa do que foi nossa servidão ao Rei. Eles não querem saber, a centralização não é apenas a morte da liberdade, mas também da saúde e da beleza, da arte e da ciência, todas estas sendo impossíveis em uma atmosfera mecânica parecida a um relógio.

O Anarquismo não pode outra coisa senão repudiar tal método de produção: sua meta é a expressão mais livre possível de todos os poderosos talentos do indivíduo. Oscar Wilde define uma personalidade perfeita como sendo “uma que se desenvolve em condições perfeitas; aquela que não está ferida, mutilada, preocupada ou em perigo.” Uma personalidade perfeita só é possível então em um estado de sociedade onde o homem seja livre para escolher o modo de trabalho, as condições de trabalho e tenha a liberdade para trabalhar. Para quem a fabricação de uma mesa, a construção de uma casa ou a preparação da terra é como a pintura para um artista e a descoberta para um cientista – o resultado de inspiração, de intenso desejo e um interesse profundo no trabalho como uma força criativa. Sendo esse o ideal do Anarquismo, a organização econômica deve consistir na produção voluntária e associações distributivas, gradualmente desenvolvendo-se em comunismo livre, como o melhor meio de produção, com o mínimo gasto de energia humana. O Anarquismo, todavia, também reconhece o direito do indivíduo, ou números de indivíduos, para arrumar todo o tempo para outras formas de trabalho, em harmonia com seus gostos e desejos.

Tal exibição livre da energia humana é possível somente sob a liberdade completa, individual e social. O Anarquismo dirige suas forças contra o terceiro e maior inimigo de toda equidade social, a saber, o Estado, a autoridade organizada ou lei estatuária – a dominação da conduta humana.

Igual a religião que acorrentou a mente humana e a propriedade, o monopólio das coisas, que reprimiu e sufocou as necessidades humanas, o Estado escravizou seu espírito, ditando cada fase da conduta. “Todo governo em essência,” diz Emerson, “é tirania.” Não importa se é um governo por direito divino ou regra da maioria. Em toda instância sua meta é a subordinação absoluta do indivíduo.

Referindo-se ao governo Norte-americano, o grande anarquista americano David Thoreau, disse: “O governo, que é senão tradição, ainda que recente, tentando-se transmitir intacto à posteridade, mas a cada instante perdendo sua integridade; este não tem a força nem a vitalidade de um simples homem vivente. A lei nunca fez os homens sequer um pouco mais justos e por seu meio de respeito para esta, até os bem dispostos são diariamente convertidos em agentes da injustiça.”

De fato a idéia central do governo é a injustiça. Com a arrogância e auto-suficiência do Rei, que não podia fazer errar, os governos ordenam, julgam, condenam e castigam as ofensas mais insignificantes, enquanto se mantém pela maior de todas ofensas: a aniquilação da liberdade individual. Assim Ouida[3] está certa quando ela diz que “o Estado só busca, ainda assim, inculcar aquelas qualidades necessárias no público, pelas quais suas demandas sejam obedecidas e seus cofres se encontrem cheios. Sua conquista máxima é a redução da humanidade a um relógio. Em sua atmosfera todas essas liberdades finas e muito delicadas, que requerem tratamento e uma expansão espaçosa, inevitavelmente se secam e morrem. O estado requer uma máquina de pagar impostos que não tenha empecilhos, um cofre que nunca tenha déficit; um público monótono, obediente, sem cor, sem espírito, movendo-se humildemente, como um rebanho de ovelhas junto em um caminho alto e reto entre duas paredes.”

Mas até um rebanho de ovelhas resistirá a vã sutileza do Estado, se não fosse pelos métodos opressivos, tirânicos e corruptos empregados para servir de seus propósitos. Portanto Bakunin repudia o Estado, o vê como sinônimo de entrega da liberdade individual ou das pequenas minorias – destruição da relação social, restrição ou até completa negação da própria vida, para seu engrandecimento. O Estado é o altar da liberdade política e, como o altar religioso, é mantido para o propósito do sacrifício humano.

De fato, quase não há nenhum pensador moderno que não concorde que o governo, a autoridade organizada ou o Estado, são unicamente necessários para manter ou proteger a propriedade e o monopólio. Só se mostram eficiente para esta função.

Até George Bernad Shaw[4], que tem esperanças de um milagre do Estado sob o Fabianismo[5], porém admitindo que “este é, no presente, uma imensa máquina de roubar e escravizar o pobre com a força bruta.” Sendo este o caso é difícil entender porque o inteligente introdutor deseja manter o Estado depois que a pobreza cesse de existir.

Desafortunadamente, ainda há um número de pessoas que continuam com a crença fatal de que o governo descansa sobre leis naturais, que estas mantêm a ordem social e a harmonia, que diminuem o crime e que previne que o homem indistinto engane seu semelhante. Portanto examinarei estas alegações.

Uma lei natural é aquela pela qual o homem afirma a si mesmo livremente e espontaneamente, sem nenhuma força externa, em harmonia com os requisitos da natureza. Por exemplo, a demanda por nutrição, satisfação sexual, luz, ar e exercício é uma lei natural. Mas a sua expressão não necessita da maquinaria do governo, nem do cassetete, da pistola, das algemas ou da prisão. Obedecer tais leis, se é que podemos chamar de obediência, requer somente espontaneidade e livre oportunidade. Que os governos não se mantêm através de tais fatores harmoniosos, é provado com as terríveis demonstrações de violência, força e coerção que usam todos os governos para poder viver. Portanto, Blackstone está correto quando diz “As leis humanas são inválidas, porque estas são contrárias a lei da natureza.”

A menos que seja a ordem de Varsóvia depois da matança de milhões de pessoas, é difícil atribuir aos governos a capacidade para a ordem ou a harmonia social. A ordem derivada da submissão e mantida com terror não garante muita segurança, ainda que essa seja a única “ordem” que os governos manteriam. A verdadeira harmonia social cresce naturalmente da solidariedade de interesses. Em uma sociedade onde os que sempre trabalham nunca tiveram nada, enquanto os que não trabalham desfrutam de tudo, a solidariedade de interesses não existe, portanto a harmonia social é mais um mito. A única maneira de a autoridade organizada enfrentar esta situação grave é estendendo os privilégios dos que já monopolizaram a terra, escravizando ainda mais as massas deserdadas. Assim todo o arsenal do governo – leis, polícia, soldados, as cortes, legislaturas, prisões – é energicamente engajado na “harmonização” dos elementos mais antagônicos da sociedade.

A desculpa mais absurda para a autoridade e a lei é que elas servem para diminuir o crime. À parte do fato que o Estado é em si mesmo o maior criminoso, rompendo toda lei escrita e natural, roubando na forma de impostos, assassinando na forma de guerra e pena capital, chegou a se ver completamente superado em sua luta contra o crime. Falhou totalmente em destruir ou mesmo minimizar o terrível flagelo de sua criação.

O crime não é nada mais que energia mal dirigida. Enquanto toda instituição de hoje, econômica, política, social e moral, conspira para dirigir erradamente a energia humana por canais equivocados; enquanto a maioria das pessoas estão fora de lugar, fazendo as coisas que odeiam fazer, vivendo uma vida que detestam viver, o crime será inevitável e todas as leis nos estatutos somente podem aumentar, mas nunca terminar com o crime. O que sabe a sociedade, como a que existe hoje, do processo de desespero, da pobreza, dos horrores, da pusilânime luta que passa a alma humana em seu caminho até o crime e a degradação. Quem conhece este processo terrível não pode deixar de ver a verdade nestas palavras de Piotr Kropotkin:

“Esses que calcularão o balanço entre os benefícios atribuídos a lei e ao castigo e o efeito degradante destes sobre a humanidade; que estimarão a torrente de maldade derramada sobre a sociedade humana pelo informante, favorecido até pelo Juiz e pago em moeda-ressonante por governos, sob o pretexto de ajudar a desmascarar o crime; esses que irão para dentro das paredes da prisão e ali verão no que se converteu os seres humanos quando privados de sua liberdade, quando são sujeitos ao cuidado de guardas brutais, com grosserias, com palavras cruéis, enfrentando-se milhões de humilhações pungentes e agudas, concordarão com nós que o aparato inteiro da prisão e seu castigo é uma abominação que deve terminar.”

A influência dissuasiva da lei sobre o homem ocioso é demasiadamente absurda para merecer alguma consideração. Somente em liberar a sociedad do gasto e dos desperdícios que causa manter uma classe ociosa e do igualmente gasto grande da parafernália de proteção que esta classe de ociosos requer, na sociedade existiria abundância para todos, inclusive até para o individuo ocioso ocasional. Além disso, é bom considerar que a vagabundagem é resultado dos privilégios especiais ou das anormalidades físicas e mentais. Nosso demente e insano sistema de produção patrocina a ambos e o fenômeno mais surpreendente é que as pessoas desejem trabalhar, ainda agora. O Anarquismo visa despir o trabalho de seu aspecto estéril e tedioso, de sua tristeza e compulsão. Tenta fazer do trabalho um instrumento de alegria, de força, de cor, de harmonia real, para que ainda o mais pobre dos homens possa encontrar no trabalho recreação e esperança.

Para realizar tal arranjo da vida, o governo, com suas medidas injustas, arbitrárias e repressivas, deve ser eliminado. O melhor que faz é impor um só modo de vida em tudo, sem respeitar as variações individuais e sociais, além de suas necessidades. Destruindo o governo e as leis estatuídas, o Anarquismo propõe resgatar o respeito próprio e a independência do indivíduo de toda a proibição e invasão pela autoridade. Só em liberdade o homem pode cultivar sua completa importância. Somente em liberdade aprenderá a pensar, a se mover e a dar o melhor de si. Só em liberdade realizará a verdadeira força dos laços sociais que atam os homens entre si e que são a verdadeira base de uma vida social normal.

Mas, o que é a natureza humana? Pode ser mudada? E se não, resistirá sob o Anarquismo?

Pobre natureza humana, que crimes horríveis cometeram em teu nome! Todo tonto, desde o rei até a polícia, desde a pessoa mais cabeça fechada até o ignorante sem visão da ciência, presume falar com autoridade da natureza humana. Quanto maior for o charlatão mental, mais definitiva será sua insistência na perversidade e debilidade da natureza humana. Mas como pode qualquer um falar disso hoje, com tantas almas na prisão, com cada coração acorrentado, ofendido e mutilado?

John Burroughs[6] declarou que o estudo experimental de animais em cativeiro é absolutamente inútil. Seu caráter, seus hábitos e seus apetites são submetidos a uma transformação completa quando são arrancados de seu solo no campo e no bosque. Com a natureza humana enjaulada em um estreito espaço, chicoteada diariamente até a submissão, como podemos falar de suas potencialidades?

A liberdade, a expansão, a oportunidade e, sobretudo a paz e o repouso, podem ensinar-nos os fatores dominantes e reais da natureza humana e todas suas magníficas possibilidades.

O anarquismo, então, realmente favorece a liberação da mente humana da dominação da religião, a liberação do corpo humano da dominação da propriedade, a liberação das cadeias e proibições do governo. O Anarquismo significa uma ordem social baseado no agrupamento livre dos indivíduos, com o propósito de produzir a verdadeira riqueza social, uma ordem que garantirá a todo ser humano acesso livre a terra e ao gozo completo das necessidades da vida, de acordo com aos desejos individuais, gostos e inclinações.

Isto não é uma idéia selvagem ou uma aberração da mente. É uma conclusão em que chegaram grandes homens e mulheres inteligentes de todo o mundo, uma conclusão resultante da observação íntima e estudiosa das tendências da sociedade moderna; liberdade individual e equidade econômica, as forças gêmeas para o nascimento do que é bom e verdadeiro no homem.

Quanto aos métodos. O Anarquismo não é, como muitos podem supor, uma teoria do futuro a ser alcançado através da inspiração divina. É uma força viva nos assuntos de nossa vida, constantemente criando novas condições. Os métodos do Anarquismo portanto não compreendem um programa vestido de ferro para se levar a cabo sob qualquer circunstância. Os métodos devem sair das necessidades econômicas de cada lugar, clima, requisitos intelectuais e temperamentais do indivíduo. O caráter calmo e sereno de Tolstoi desejarão diferentes métodos para a reconstrução social, que a intensa e transbordante personalidade de Mikhail Bakunin ou Piotr Kroptkin. Da mesma forma deve ser óbvio que as necessidades econômicas e políticas da Rússia prescreveram medidas mais drásticas que as da Inglaterra ou América. O Anarquismo não significa exercícios militares e uniformidade; entretanto significa espírito revolucionário, em qualquer forma, contra tudo o que impeça o crescimento humano. Todos os Anarquistas concordam com isso,  da mesma forma em que estão de acordo em sua oposição à maquinaria política como um meio de causar a grande transformação social.

“Toda votação”, disse Thoreau, “é um jogo de sorte, semelhante a damas ou gamão, o jogo com o bem e o mal, sua obrigação nunca excede sua conveniência. Mesmo votando para o correto é fazer nada por isto. Um homem sábio não deixará o que é certo nas mãos incertas do acaso e nem esperará que a sua vitória se dê através da força da maioria.” Um exame íntimo acerca da maquinaria da política e suas realizações nos levarão à lógica de Thoreau.

O que demonstra a história do parlamentarismo? Nada mais que fracasso e derrota, nem mesmo uma única reforma para melhorar a tensão econômica e social das pessoas. Aprovaram-se leis e fizeram-se estatuto para o melhoramento e proteção do trabalho. Assim sendo, observou-se em Illinois, no ano passado, com as leis mais rígidas para a proteção mineira, os maiores desastres mineiros. Em estados onde as leis de trabalho das crianças prevalecem, a exploração infantil está em níveis altíssimos, e, embora os trabalhadores desfrutem de oportunidade políticas completas, o capitalismo chegou a seu momento de maior insolência.

Mesmo se os trabalhadores pudessem ter seus próprios representantes, que é o que nossos bons políticos socialistas estão clamando, que chances há para sua honestidade e boa fé? Tem mais que se ter em mente o processo da política, para dar-se conta de que seu caminho de boas intenções está repleto de armadilhas: maquinações secretas, intrigas, adulações, mentiras e trapaças; de fato, mentiras de todas as descrições, pelo qual o aspirante político pode conseguir o êxito. Incorporado a isto está a desmoralização completa do caráter e das convicções, até que não reste nada, fazendo com que qualquer humano desamparado tenha esperança. De tempo em tempo as pessoas ficam suficientemente tontas para confiar, crer e apoiar até o seu último centavo, os aspirantes políticos, para ver-se ao final, traídas e enganadas.

Pode-se dizer que os homens íntegros não se converteriam em corruptos, em moinho opressivo político. Talvez não, mas como homens seriam absolutamente impotentes para exercer a mais ínfima influência em nome do trabalho, como de fato foi demonstrado em numerosos exemplos. O estado é o mestre econômico de seus servidores. Os bons homens, se tais existirem, ou permaneceriam fieis a sua fé política e perderiam seu suporte econômico, ou se agarrariam a seus mestres econômicos e seriam completamente incapazes de fazer o menor bem. A arena política não deixa uma alternativa, deve ser um burro ou trapaceiro.

A superstição política ainda domina os corações e as mentes das massas, mas os verdadeiros amantes da liberdade não têm nada a ver com isto. Ao contrário, eles crêem, como Stirner, que o homem tem tanta liberdade tanto quanto ele está disposto a tomar. O Anarquismo, portanto, defende a ação direta, o desafio aberto e a resistência frente a todas as leis e restrições econômicas, sociais e morais. Mas o desafio e a resistência são ilegais. Nisto descansa a salvação do homem. Tudo ilegal necessita de integridade, segurança própria e coragem. Busca por espíritos livres e independentes, por “homens que são homens e que tem osso em suas costas, o qual não pode se atravessar com as mãos.”

O sufrágio universal deve a sua existência à ação direta. Se fosse não pelo espírito de rebelião, de desafio por parte dos pais revolucionários americanos, seus descendentes ainda estariam sob o abrigo do Rei. Se não fosse pela ação direta de um Juan Brown e seus camaradas, a América estaria comercializando a carne do homem negro. Certo, o comércio da pele branca ainda é atual, mas esse, também, terá que ser abolido pela ação direta. O sindicalismo, a arena econômica do moderno gladiador, deve sua existência à ação direta. Mas até recentemente essa lei e governo trataram de oprimir o movimento sindical e condenaram à prisão, como conspiradores, os expoentes do direito do homem a organizar-se. Se eles tivessem procurado lograr suas causas rogando, suplicando e pactuando, os sindicatos hoje seriam quantitativamente insignificantes. Na França, Espanha, Itália, Rússia, até a Inglaterra (testemunha da crescente rebelião das uniões laborais), a ação direta, revolucionária, econômica torna-se uma força tão poderosa na luta pela liberdade industrial que conseguiu fazer com que o mundo desse conta da tremenda importância do poder do trabalho. A greve geral, a expressão suprema da consciência econômica dos trabalhadores foi ridicularizada na América, faz pouco tempo. Hoje toda grande greve, a fim de ganhar, deve dar-se conta da importância do protesto solidário geral.

A ação direta, havendo provado sua efetividade junto às linhas econômicas, é igualmente poderosa no ambiente individual. Ali centenas de forças avançam sobre seu ser e só a resistência persistente frente a elas o libertará, finalmente. A ação direta contra a autoridade no local de trabalho, ação direta contra a autoridade da lei, ação direta contra a autoridade impertinente e invasiva do nosso código moral, é o método lógico e consciente do Anarquismo. Nos conduzirá a uma revolução? De fato, o fará. Nenhuma mudança social veio sem uma revolução. As pessoas estão ou não familiarizadas com sua história, ou ainda elas não aprenderam que a revolução é o pensamento levado à ação.

O Anarquismo, a grande fermentação do pensamento, está hoje imbricado em cada uma das fases do esforço humano. A ciência, a arte, a literatura, o drama, o esforço para a melhoria econômica, de fato, toda oposição individual e social existindo em desordem com as coisas, é iluminada pela luz espiritual do Anarquismo. É a filosofia da soberania do indivíduo. É a teoria da harmonia social. É o grande renascimento da viva verdade que está reconstruindo o mundo e nos anunciará ao amanhecer.


[1] Instrumento de tortura para apertar polegares.

[2] Ralph Waldo Emerson (25 de maio de 1803, Boston27 de abril de 1882, Concord, Massachusetts) foi um famoso escritor, filósofo e poeta estado-unidense. (Informação retirada da enciclopédia livre Wikipédia.org)

[3] Pseudônimo utilizado pela escritora americana Maria Louisa de La Ramée. (Informação retirada da enciclopédia livre Wikipédia.org)

[4] “George Bernard Shaw (Dublin, 26 de julho de 1856Ayot Saint Lawrence, 2 de novembro de 1950) foi um escritor, jornalista e dramaturgo irlandês, autor de comédias satíricas que o tornaram espírito irreverente e inconformista.” (Informação retirada da enciclopédia livre Wikipédia.org)

[5] “O Fabianismo é uma doutrina e um movimento político-ideológico socialista democrático, reformista e não-marxista, de concepção inglesa. Teve origem na Fabian Society fundada em Londres no final de 1883 e início de 1884 por um grupo de jovens intelectuais de diferentes linhas socialistas, com o propósito de reconstruir a sociedade com o mais elevado ideal moral possível.” (Informação retirada de http://br.geocities.com/portal_verde_amarelo/Fabianismo.html)

[6] John Burroughs (April 3, 1837-March 29, 1921) foi um naturalista e ensaísta americano importante na evolução do the U.S. conservation movement. (Informação retirada da enciclopédia livre Wikipédia.org)

GOLDMAN, Emma. Anarquismo: lo que significa realmente. Traidores: Espacio Comunitario y Libreria Anarquista Emma Goldman, [Santiago]. Disponível em: <http://www.traidores.org/emma/textos/anarquismo.pdf>. Acesso em: 21 de nov. 2009.

Traduzido por Antonio Henrique do Espírito Santo Loula. Revisado por Íris Nery do Carmo.

nv

Posted in 1 on Dezembro 20, 2009 by Antonio Henrique

Entre um drama existencial e outro eu estou aqui, vivo e um pouco entediado, para anunciar que estamos vivo e ainda essa semana entrar no ar uma nova tradução da Emma Goldman. Dessa vez xs leitorxs do blog terão acesso a um texto um pouco mais longo que o anterior  e onde a autora tratará diretamente do anarquismo, é uma bela introdução ao que é anarquismo.

Para não terminar as coisas com esse simples aviso vai uma dica para quem gosta de fotografia jornalistica.  É o site do The Big Picture, as fotos são de alta qualidade material, artisticia e informativa. Aproveitem:

http://www.boston.com/bigpicture/

Abraços!

Sempre que possível mantenham-se unidxs, só assim seremos fortes!

Escutando pagode [1] com ouvidos feministas – o pagode como produtor de mulher objeto

Posted in 1 on Dezembro 9, 2009 by carla vanessa

Ultimamente tem-se  visto o fenômeno de crescente expansão da música de pagode em letras que comunicam sobre a sexualidade [2], principalmente, visivelmente, sobre a sexualidade feminina. Diante desse fenômeno, há a interpretação de que se vive em um momento de propicia liberdade de expressão sexual onde grupos marginalizados socialmente e culturalmente vêm ganhando força de manifestação. Ou ainda, de que seria o tempo do grito das massas –  questionando a  produção/rotulação de suas músicas por uma referência musical, cultural. Reconheço a pertinência de alguns desses elementos citados, no entanto, tenho algumas objeções.

ele no centro. elas no ritmo dele.

Não compartilho as mesmas teias de significado de quem vive o pagode – estou de fora, portanto, não posso opinar sobre, pois incorreria em equívocos. Mas, faço parte de uma sociedade que escuta cada vez mais pagode, pagode que tem produzido um rol de nomes para a genitália feminina, que cada vez mais tem representado a mulher como um ser tão somente sexual e que cada vez mais tem falado da intimidade  feminina. Poderia dizer que eles não se referem à uma mulher universal, mas sim à “piriguete”. Será? Ainda que seja, isso não é impedimento para que eu efetive uma crítica.

Minha fala  não é de quem vive no pagode, mas de quem vive em meio a ele. Exprimo-me como uma observadora que percebe, que sente o pagode. Portanto, nos meus limites, discorro a minha crítica.

De antemão, digo: o espetáculo do pagode me parece domínio dos “homens”. No palco, até onde vi, as “mulheres” não cantam, quase sempre o que fazem é dançar no ritmo da música feita por eles. Expressão do “corpo feminino”? Expressão cada vez mais do corpo, apenas. Depois, conheço várias “mulheres” que dizem sentirem-se constrangidas com as músicas de pagode. Por último, o pagode é cada vez mais mercadológico, possuindo letras seriadas, cantando grandes marcas de bebida… Cada vez mais uma manifestação da sociedade capitalista que não consigo escutar como um contra-discurso ou um outro discurso. Os efeitos da tal manifestação me parecem reforçar o machismo, o patriarcado que são correlatos do capitalismo.

Se o pagode faz parte da conjuntura capitalista desta sociedade como uma cultura de massa, ele deve ser passível de críticas mais amplas, posto que tal sociedade produza fenômenos estruturais.

Parece-me que um dos efeitos da expansão do pagode é produzir e reproduzir estereótipos femininos – e também masculinos. Estereótipos são controláveis. A representação da mulher em tais músicas confundem-se com a produção de uma mulher objeto. Ao passo que diz representar, produz – e isso é problemático e, não apenas a música de pagode faz isso. E quais subjetividades o pagode produz? Quais comportamentos?

Alienação ou subversão?

Mas, agora, um parentese: não coloco que o pagode seja o “grande mal”, o sujeito autoral do machismo. Digo que seja um dos mecanismos pelo qual o patriarcado se efetiva, basta analisar as letras para saber que carregam um “machismo histórico”.

Concluo dizendo que não pretendo fazer discurso militante com esse texto. Minha intenção é expor um ponto de vista que mostra a objetificação das mulheres através da representação-produção das mesmas em músicas de pagode, sabendo que tais músicas ganham amplitude na sociedade, status de mercadológica e massificam um ethos. Gostaria de continuar e aprofundar o texto com comentários, principalmente comentários de pessoas que escutam pagode. E quero recolocar a questão: em que medida quem tá “de fora” pode construir uma crítica em relação ao pagode? E em quais termos?

[1] refiro-me à uma manifestação musical típica de Salvador, exemplos: http://letras.terra.com.br/saiddy-bamba/ .

[2] entendo sexualidade como uma dimensão humana que se vive de várias maneiras.

dica de leitura: o texto “O pagode ou a derrota das mulhres” da professora Lúcia Leiro.

A ARMADILHA DA PROTEÇÃO – Emma Goldman

Posted in 1 with tags , on Novembro 30, 2009 by Antonio Henrique

Dando prosseguimento a tradução o livro “El amor libre” organizado pelo Osvaldo Baigorria, vai para o ar um texto de Emma Goldman chamado “A armadilha da proteção”. O texto trata da questão do matrimônio, da regulação do amor, traçando duras críticas a esta institução, além de tratar da questão do amor por uma perspectiva anarquista.

Sem muitos comentários. Leiam e comentem!  (se acharem algum trecho obscuro ou algum erro de português avisem!)

A ARMADILHA DA PROTEÇÃO

Emma Goldman


O matrimônio e o amor não possuem nada em comum; estão tão longe entre si como dois pólos, inclusive, antagônicos. O matrimônio é antes de tudo um acordo econômico, um seguro que só se diferencia dos seguros de vida correntes no que é mais vinculador e rigoroso. Os benefícios que se obtém dele são insignificantes em comparação com o que se paga por ele. Quando se assina uma apólice de seguros, se paga dinheiro e se tem sempre a liberdade de interromper os pagamentos. Entretanto, se o prêmio de uma mulher é um marido, tem que pagar por ele com seu nome, sua vida privada, o respeito de si mesma e sua própria vida “até que a morte os separe”. Além disso, o seguro do matrimônio a condena a depender do marido por toda vida, ao parasistismo e à completa inutilidade, tanto do ponto de vista individual quanto social. O homem também paga o seu tributo, mas como sua esfera de vida é muito mais ampla, o matrimônio não o limita tanto quanto à mulher. As correntes do marido são muito mais econômicas.

Vivemos em uma época de pragmatismos. Já não estamos nos tempos em que Romeu e Julieta se arriscavam a desafiar a ira dos seus pais por amor, ou em que Margarita se expunha aos falatórios de seus vizinhos, também por amor. A norma moral que se inculca na jovem não é perguntar-se se o homem despertou seu amor, senão “quanto ganha”. O único deus e a única coisa importante da vida pragmática norte-americana são: Pode o homem ganhar a vida? Isso é a única coisa que justifica o matrimônio. Pouco a pouco vão se saturando com pensamentos da garota, que já não sonha com beijos e a luz da lua, ou com risos e lágrimas, senão com sair para comprar e conseguir liquidações nas lojas. Essa pobreza de alma e essa sordidez são os elementos inerentes à instituição do matrimônio.

Essa instituição converte a mulher em um parasita e a obriga a depender completamente de outra pessoa. A incapacita para a luta pela vida, aniquila sua consciência social, paralisa sua imaginação e lhe impõe, depois, graciosamente sua proteção, que na realidade é uma armadilha, uma paródia do caráter humano. Se a maternidade é a maior realização da mulher, que outra proteção necessita senão o amor e a liberdade? O matrimônio profana, ultraja e corrompe essa realização. Por acaso não disse à mulher que somente sob sua proteção poderá dar a vida? Não a põe na conversa, a degrada e a envergonha se se nega a comprar seu direito à maternidade com sua própria pessoa? Por acaso o matrimônio não sanciona a maternidade, ainda que haja concebido com ódio ou por obrigação? E quando a maternidade é escolhida, produto do amor, do êxtase, da paixão desafiante, não se coloca uma coroa de espinhos numa cabeça inocente, gravada em letras de sangue o odioso epíteto de “bastarda”?

Ainda no caso de que o matrimônio contivera todas as virtudes que dele se afirmam, seus crimes contra a maternidade os excluiriam para sempre do reino do amor. O amor, o elemento mais forte e profundo de toda vida, presságio de esperanças, de êxtase; o amor que desafia a todas as leis, a todas as convenções; o amor, o mais livre, o mais poderoso modelador do destino humano, como pode essa força toda poderosa ser sinônimo da pobre feiúra do Estado e da Igreja que é o matrimônio?

Amor livre? Por acaso o amor pode ser outra coisa mais que não livre? O homem comprou cérebros, mas todos os milhões deste mundo não conseguiram comprar o amor. O homem submeteu os corpos, mas todo o poder da terra não foi capaz de submeter o amor. O homem conquistou nações inteiras, mas todos os seus exércitos não poderão conquistar o amor. O homem encarcerou e aprisionou o espírito, mas não pode nada contra o amor. Incrustado em um trono, com todo o esplendor e pompa que pode proporcionar o seu ouro, o homem se sente pobre e desolado se o amor não pára na sua porta. Quando existe amor, a cabana mais pobre se enche de calor, de vida e alegria; o amor tem o poder mágico de converter um mendigo em rei. Sim, o amor é livre e não pode crescer em nenhum outro ambiente. Em liberdade, se entrega sem reservas, com abundância, completamente. Todas as leis e decretos, todos os tribunais do mundo não poderão arrancar-lhe do solo em que fincou suas raízes. O amor não necessita de proteção, porque ele se protege a si mesmo.

Enquanto é o amor que gera os filhos, não há crianças abandonadas, famintas ou carentes de afeto. Conheço mulheres que foram mães sem liberdade com o homem a quem amavam. Poucos filhos têm desfrutado do matrimônio do cuidado, proteção e devoção que a maternidade livre é capaz de deparar-lhes. Os defensores da autoridade temem a maternidade livre por medo de que se despoje de sua presa. Quem então lutaria nas guerras? Quem se faria de carcereiro ou polícia se as mulheres se negam a dar luz indiscriminadamente? A raça, a raça! Grita o rei, o presidente, o capitalista, o sacerdote. Há que salvar a raça, ainda que a mulher seja degradada ao papel de pura máquina, e a instituição do matrimônio é a única válvula de segurança contra o perigoso despertar sexual da mulher.

Mas são inúteis estes esforços desesperados para manter um estado de escravidão. São inúteis também os editos da Igreja, os ferozes ataques dos ditadores, e inclusive o braço da lei. A mulher não quer seguir sendo a produtora de uma raça de seres humanos doentes, débeis, decrépitos e miseráveis, que não tem nem a força, nem o valor moral de sacudir-se do jugo de sua pobreza e de sua escravidão. Em lugar disto, deseja menos filhos e melhores, formados e criados com amor e por livre eleição, não por obrigação, como no matrimônio.

Nossos pseudomoralistas têm que aprender o profundo sentido de responsabilidade para com as crianças, que o amor em liberdade desperta no peito da mulher. Esta preferiria renunciar para sempre a maternidade que dar a vida em uma atmosfera onde só se respira a destruição e a morte. E, se se converte em mãe, é para dar a criança o melhor e o mais profundo de seu ser. Seu lema é desenvolver-se com a criança, e sabe que só desta maneira poderão formar-se os verdadeiros homens e as verdadeiras mulheres.

Na realidade, em nosso atual estado de pigmeus, o amor é algo desconhecido para a maioria das pessoas. Não o compreendem, e se esquiva ou muitas raras vezes se arraiga; e quando o faz, de repente murcha e morre. Sua fibra delicada não pode suportar a tensão e os esforços do viver cotidiano. Sua alma é demasiadamente complexa para ajustar-se a viscosa textura da nossa trama social. Chora, se lamenta e sofre com os que o necessitam e, no entanto, carecem de capacidade para elevar-se a sua altura.

Algum dia, os homens e as mulheres se elevarão e alcançarão o cume das montanhas; se encontrarão grandes, fortes e livres, dispostos a receber, compartilhar e aquecerem-se nos dourados raios do amor. Que imaginação, que fantasia, que gênio poético pode prever, ainda que seja aproximadamente, as possibilidades dessa força nas vidas dos homens e das mulheres? Se no mundo tem que existir alguma vez a verdadeira companhia e a unidade, o padre será o amor e não o matrimônio.

Traduzido de: GOLDMAN, Emma. La trampa de la protección. In: BAIGORRIA, Oslvaldo. El amor libre: Eros e anarquia. 1 ed. Buenos Aires: Libros de Anarres, 2006. cap. 9, p. 49 – 52.

Traduzido por: Antonio Henrique do Espirito Santo. Revisado por: Íris Nery do Carmo.

“A revolução cultural é uma importante arma contra todas as opressões”: uma entrevista via e-mail com Carla, Julie e Íris do Zine Histérica, Brasil

Posted in 1 with tags , on Novembro 22, 2009 by irisnery

Carla

Com imensa euforia, comunico-lhes que nós (eu, Carla e Julie), do zine Histérica, fomos entrevistadas para o site Grass Roots Feminism, feito pela Elke Zobl e Red Chidgey. Este é um site que busca fazer uma antologia da produção feminista [contra]cultural a nível transnacional, arquivando entrevistas, zines posters.

Para as criadoras do projeto, trata-se de quebrar com o preconceito do senso comum, no qual mulheres jovens e garotas são vistas como culturalmente improdutivas e como consumidoras passivas da cultura de massa. Trata-se , portanto, de dar visibilidade a essa larga produção feminista, baseada no lema “faça-você-mesmo” (“Do it yourself”) e que raramente se vê nas livrarias.

Para x nossx leitor/a que ainda não sabe que diabos é o Histérica, vou pôr um trecho inicial da entrevista (que é em inglês) escrito por Carla:

Julie

“Somos três garotas brasileiras, que fizeram um zine usando a internet. O movimento riot grrrl nos inspira, o feminismo radical da década de 60 também, bem como nossas experiências pessoais, e tentamos relacionar isso com o que é importante para nós. Há mais um monte de outras coisas que estão misturadas no que nós estamos fazendo e vocês podem sentir isso lendo o fanzine. Ele é todo escrito em português, nossa primeira edição saiu em março de 2009 e nós entrevistamos: Allison Wolfe (líder e vocalista da seminal banda riot grrrl Bratmobile e atualmente vocalista da banda Partyline) e a seminal banda punk feminista brasileira Dominatrix. Textos e artes. Em breve a segunda edição será feita e vocês, garotas, provavelmente vão ouvir sobre isso.”

É isso! confiram a entrevista na íntegra aqui, cujo título dado pela Elke e a Red foi “Cultural revolution is an important weapon against all oppressions“: An e-mail interview with Carla, Julie and Íris from Histérica Zine, Brazil” – “A revolução cultural é uma importante arma contra todas as opressões”: uma entrevista via e-mail com Carla, Julie e Íris do Zine Histérica, Brasil”.

Íris

Não posso esquecer de agradecer à Carla pelas correções do meu péssimo inglês, bem como a ambas (Carla e Julie) pela parceria no zine, que elas toparam de primeira, e que vem nos proporcionando tantas coisas boas! Para quem nunca esteve envolvidx com tudo isso, pode parecer algo banal – um insignificante pedaço de papel! Mas, para nós é muito mais. Sisterhood is powerful!

PS: ainda temos cópias da primeira edição, quem quiser, é só mandar e-mail pra gente (histerrrica@hotmail.com) ou falar diretamente comigo.

Entre linhas…

Posted in 1 on Novembro 20, 2009 by rodrigo77

moleza acabouDesculpas.

Justificativas para minha “moleza”(?).

Uma suposta necessidade de esperar por alguma coisa: Não sei se amadurecimento. Sinto que com o passar do tempo as coisas ficam mais concretas pra mim. Me sinto mais preparado pra algumas coisas. Mas sinto um atraso estranho em minha vida, que não entendo muito bem. É como se eu tivesse nascido antes do tempo, aquela historia da minha idade real não corresponder à idade que sinto ter. E nesse processo de análise, tento acompanhar melhor o momento em que estou na vida, de ir atrás da minha independência financeira, etc. De uma forma geral, ingressar na vida adulta, que sinto ter minhas resistências e questionamentos. Medos também. Vontade dual. E busco sair disso… dessa dualidade toda, que resulta em eu não conseguir firmar o que quero definidamente. Uma mania, idéia a que me fixei bastante entre a pré-adolescência e a adolescência, de achar que poderia ter “tudo”, que poderia fazer “tudo” do jeito que eu achava melhor. Achava que o possível era algo bem simples. Não enxergava muitas dificuldades nas coisas, apesar disso ter quase me levado à loucura algumas vezes. Percebo que trago muitas coisas da infância e juventude (da qual ainda não saí) para o hoje em dia, e como algumas vezes acabo ficando preso e me embolando. Pensando agora, talvez eu tenha ficado preso em algum momento de minha vida, resultando nesse atraso e uma agonizante e confusa mistura de lentidão com pressa.

Indefinição, indeterminação, indireção.

———

Escrevi esse texto em algum momento de introspecção, reflexão profunda, e engraçado, terminei com 3 palavras um tanto soltas, que me fizeram pensar sobre um outro textinho que escrevi, sobre bom ou ruim, certo e errado. Na verdade, sobre o que estaria entre esses duos. Talvez, apenas um semi-texto… ou um quase-texto.


“aberto ou fechado

certo ou errado

feio ou bonito

consigo enxergar tantas possibilidades nessas “entrelinhas”

que na verdade não está entre linha nenhuma

e tem ficado tão na cara como as outras possibilidades q vêm”

Da UNIBAN à “Toda enfiada”

Posted in 1 with tags , , , , on Novembro 12, 2009 by irisnery

post UNIBAN

Ultimamente tenho achado importante a manifestação, mesmo que virtual, sobre fatos que vem acontecendo, e que as vezes passam batidos. Penso que é importante não ficarmos caladxs, e esta foi a motivação para esse post.

O fato ocorrido dessa vez não foi alvo do silêncio, pelo contrário: estou me referindo ao caso Geyse Arruda, a [agora] famosa “estudante da UNIBAN”. Penso que a violência simbólica e a iminência de violência física e de abuso sexual sofridas por ela é totalmente repudiável. Quem assistiu ao vídeo pode comprovar quê o que houve foi uma catarse coletiva de violência sexista apoiada na dicotomia presente no nosso imaginário, de origem judaico-cristã, entre “a puta” x “a submissa”.

À despeito da grande repercussão negativa, que levou à diretoria cancelar a expulsão da aluna[1], as formas de repúdio, como tenho visto, tem sido diversas, e nem sempre sensatas.

Vou me deter em uma: tem sido comum a comparação do ato discriminatório cometido pelos alunos com as chamadas tradições orientais – como a imposição do uso da burca pelas mulheres . É como se eles, orientais, representassem por si a opressão e o tradicionalismo, e nós, ocidentais, a modernidade, e a liberdade, o fim das opressões.

Essa auto-representação da modernidade tem como marco o Iluminismo, que se julgava libertador dos homens, das amarras das antigas tradições e privilégios feudais, tendo como ferramenta o uso da razão. Hoje fica claro o quanto esse é um pseudo-universalismo, que na verdade reflete desejos e ambições bastante situados: liberdade, igualdade e fraternidade para pessoas do sexo masculino, brancos, ocidentais e proprietários.

Foi esse mesmo pensamento que moveu e ainda move catástrofes etnocêntricas [2], como a guerra do Iraque – e mais uma pá de outras guerras -, em nome da liberdade a ser estabelecida por nós, num místico Oriente. (Liberdade essa selada com soldados estuprando mulheres “não-liberadas”..).

Também na questão da clitoridectomia o etnocentrismo é muito visível: julgamos práticas, como essa, inconcebíveis. Ela é objeto de repúdio por parte das nações unidas, órgãos de direitos humanos e ONG’s feministas, sem qualquer questionamento sobre as nossas práticas que agem sobre o corpo da mulher de modo a “otimizá-lo” (sim, é como se fôssemos objeto..), como a cirurgia plástica, que, nos seios pode levar à insensibilidade – tal como ocorre na clitoridectomia. Tudo em nome da beleza…para agradar a quem? E o quê dizer das plásticas genitais para o estreitamento do canal vaginal?

Como coloca Ella Shohat [3], temos que estar atentas para não cairmos num feminismo colonizador e monocultural – uma crítica necessária para que as nossas lutas, plurais, sejam eficientes e livres de toda hierarquia:

“Quando mulheres participam de práticas opressivas, como nós, como feministas, devemos reagir a elas? A questão fica mais complicada em uma perspectiva dos direitos humanos e do cruzamento internacional das fronteiras. A princípio, essas mulheres podem pedir asilo nos Estados Unidos como refugiadas, alegando que sofrem uma opressão de gênero (a clitoridectomia). No entanto, elas só podem solicitar entrada nos Estados Unidos se a natureza “bárbara” de sua cultura for reforçada aos olhos ocidentais. As feministas eurocêntricas lutam para salvar as mulheres africanas de uma forma que reproduz os discursos coloniais sobre a África. [...] Simplesmente discutir a clitoridectomia como bárbara apaga as lutas das mulheres no Quênia ou no Egito contra tais práticas e anula a complexidade das culturas africanas, que não podem ser reduzidas a essas práticas. O problema, assim, não é somente a prática, mas que narrativa colocamos em ação para resistir a essas práticas. O desafio é evitar as fantasias salvadoras _ que nos levam de volta às narrativas coloniais. Eu me lembro do filme Around the World in 80 Days, em que David Niven salva uma princesa indiana (Shirley McLaine) da sati (a cremação da viúva). Hoje, são as feministas eurocêntricas que representam o papel de heroínas das narrativas modernizadoras. Implícita nessa narrativa salvadora está a suposição de que o “ocidente” superou sua própria opressão de gênero.”

Retornando ao fato ocorrido e à comparação do ato discriminatório com as chamadas tradições orientais, é notável a associação UNIBAN – Talibã entre xs indignadxs, denotando uma suposta regressão a um estágio de civilização anterior, e bestialidade daqueles que lá estudam. O 11 de setembro serviu como marco histórico do ímpeto colonizador cujo bode expiatório foi o talibã. O ato de atribuir sempre ao Outro – e esse grande e longínquo Outro que constitui o oriente ao longo da nossa história – as atitudes de intolerância limpam a nossa barra e impede de nos voltarmos para nós mesmos.

O autoquestionamento é vital para identificarmos a intolerância como constituinte das nossas próprias práticas. O brasil é um país conhecido como “país do carnaval”, da liberdade sexual – visível em nossas mulheres sensuais, e com poucas roupas. Ficam as perguntas: São todas as mulheres que possuem o aval social para usar poucas roupas? Como são seus corpos? O que essas roupas visibilizam? A cena que vemos no vídeo que levou à demissão da professora baiana diz respeito a mais um aspecto da nossa imensa “liberdade” enquanto brasileirxs: há igualdade entre os corpos “enfiáveis” e os não-enfiáveis [4]? Quem está com pouca roupa?

Acredito que, assim como o total apagamento do corpo da mulher sob a forma da burca, também a nudez/seminudez é política.

Notas:

[1] Sob o regime do patriarcado capitalista, é comum identificar a vítima como causadora da sua própria desgraça. Em casos de estupro, fala-se que “ela pediu por isso, pois estava de saia”. No caso UNIBAN, eis o que foi publicado:

“Com o término da sindicância e da apuração dos fatos, a universidade decidiu desligar Geisy de seu quatro de estudantes por entender que ela foi responsável, que provocou a situação com sua atitude”, afirmou ao Estado o assessor jurídico da Uniban, Décio Lencioni Machado. “Nunca tinha acontecido isso e outras meninas usam vestidos e saias curtas. Ocorreu com ela por causa de sua atitude em querer aparecer, desfilar na rampa, tirar fotos e passar pelas salas”, justifica.”

[2] Segundo a wikipédia: ” Etnocentrismo é um conceito antropológico, segundo o qual a visão ou avaliação que um indivíduo ou grupo de indivíduos faz de um grupo social diferente do seu é apenas baseada nos valores, referências e padrões adotados pelo grupo social ao qual o próprio indivíduo ou grupo fazem parte. Essa avaliação é, por definição, preconceituosa, feita a partir de um ponto de vista específico.”

[3] COSTA, CLAUDIA DE LIMA. Feminismo Fora do Centro: Entrevista com Ella Shohat. Rev. Estud. Fem. [online]. 2001, vol.9, n.1, pp. 147-163 . Disponível aqui.

[4] A fantástica Roswitha Scholz escreveu uma passagem que vem a calhar: “É de notar, não em último lugar, que em todo o debate sobre o terrorismo as mulheres mais uma vez se tornam um signo no mundo ocidental. Invocam-se as mulheres oprimidas dos talibãs para fazer propaganda belicista com a desumanidade dos “bárbaros”. As mulheres são a moeda com que se especula. O lado belicista ocidental, incluindo os seus apoiantes de esquerda, às vezes até dá a impressão de que as bombas são lançadas sobre o Afeganistão precisamente para libertar as mulheres. [...]  Os Talibãs bárbaros como inimigos das mulheres e adversários dos “perversos” são assim transformados em mera superfície de projecção para poder esconder completamente, na celebração da civilidade burguesa, a relação básica de género inimiga das mulheres e compulsivamente heterossexual que serve de fundamento à sociedade burguesa.”

[5] Referência à música “Toda enfiada”.

 

[4] Roswitha Scholz escreveu uma passagem que vem a calhar: “É de notar, não em último lugar, que em todo o debate sobre o terrorismo as mulheres mais uma vez se tornam um signo no mundo ocidental. Invocam-se as mulheres oprimidas dos talibãs para fazer propaganda belicista com a desumanidade dos “bárbaros”. As mulheres são a moeda com que se especula. O lado belicista ocidental, incluindo os seus apoiantes de esquerda, às vezes até dá a impressão de que as bombas são lançadas sobre o Afeganistão precisamente para libertar as mulheres. [...]  Os Talibãs bárbaros como inimigos das mulheres e adversários dos “perversos” são assim transformados em mera superfície de projecção para poder esconder completamente, na celebração da civilidade burguesa, a relação básica de género inimiga das mulheres e compulsivamente heterossexual que serve de fundamento à sociedade burguesa.”

ESTAMOS FAZENDO MULHERZINHAS E MACHÕES??

Posted in 1 on Novembro 7, 2009 by Antonio Henrique

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Toda última segunda feira do mês na lapa, maior estação de ônibus de salvador, ocorre uma vigília que busca chamar atenção para a violência contra as mulheres. Acontece que na vigília deste mês de novembro ocorreu a intervenção do coletivo mulheres na rua – um coletivo feminista!

- Feminista!?

- Sim, feminista!

Para alguns elas morreram ou desistiram entre a década de 1970 e 80, para outrxs elas caíram na repetição, chatice e descrédito que toda esquerda parece ter caído, e ainda, para outrxs, elas são problemáticas que vivem a reclamar de coisas inexistentes, que só existem na cabeça delas; mas para elas é diferente. Para elas o feminismo não é coisa do passado, não é chato e muito menos caiu em descrédito, o feminismo é uma forma de existir e pensar o mundo sem a opressão de um gênero sobre o outro, portanto, haverá feminismo enquanto os homens odiarem as mulheres.

Numa intervenção, intitulada “brinquedos e a construção do gênero”, que se encaixaria facilmente no dia das crianças, o coletivo ocupou parte do vão central da lapa expondo uma maquete que problematizava a questão da construção social dos gêneros (homem-mulher), que facilita a subordinação das mulheres aos homens, através da exposição de uma micro cena social, composta por brinquedos. Os brinquedos chamaram bastante atenção dxs transeuntes pois, de maneira geral, é algo eu fez e faz parte da vida delxs em algum momento, seja quando foram crianças e tiveram brinquedos, quando adultxs e presentearam crianças com brinquedos, etc. Esse é um dos motivos que pode explicar a intensa movimentação que ocorreu, e, por sua vez, a intensa movimentação demonstra o interesse dos que passavam pela problematização da ordem patriarcal. O que parecia ser óbvio e natural – brincadeiras onde meninas assumem o lado de personagens “boas” e meninos de “maus” – foi posto em crise e em lugar deste esquema opressor foi aberta a possibilidade de se pensar outro mundo, outra forma de se educar as crianças, outras formas de brincadeiras, longe do opressor esquema habitado por “machões e menininhas?”.

Pra dar suporte à intervenção o coletivo distribuiu o seguinte panfleto:

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O coletivo promete promover mais ações nas ruas de salvador. Vamos aguardar e na medida do possível cobrirei estas ações.

Links do coletivo:

Blog – http://mulheresnarua.wordpress.com/
Flickr – http://www.flickr.com/photos/mulheresnarua