Resposta a Feral Faun.
Admito que por algum tempo nutri certa esperança e tive uma visão otimista de todo o discurso primitivista, anarco-primitivista, anarquista verde, queira você chamar do que quiser. Essa esperança aos poucos foi se desmanchando e hoje acredito que uma boa parte, mas não tudo, destes supostos teórico-práticos é conversa pra boi dormir e às vezes chego a pensar que são cópias mal-feitas e mal pesadas do Hakim Bey misturadas a uma antropologia de esquina.
Hoje me deparei com o texto chamado “A ideologia da vitimização” do Feral Faun[i] e sinceramente a primeira coisa que me perguntei ao terminar de lê-lo foi: qual o objetivo? Quais as razões desse texto? Feral é um cretino ou um ingênuo? Mas no fundo, independente das perguntas que tenha me feito, sei que tudo indica que ele é apenas um homem, um branco, um norte-americano e um heterossexual a reclamar de movimentos que atacam a posição social que ele ocupa.
O texto todo transcorre em cima da idéia de que determinados movimentos “radicais” de libertação parcial (movimento de mulheres, gay, raciais, étnicos, etc.) acabam por reproduzir ou assimilar uma lógica que é própria de uma mídia maldosa que vive a transmitir noticias ruins objetivando criar nos ouvintes, telespectadores, leitores um mal-estar que vem acompanhado de um sentimento de medo, que se generaliza nos indivíduos, transformando-se numa ideologia que irá guiá-los no sentido de impedi-los de alcançar o gozo revolucionário. È isso que Faun intitula ideologia da vitimização. E é essa ideologia que o autor tenta associar com o feminismo. Aqui acho que vale citar que isso que o Faun tenta denunciar com um certo ar de ineditismo é uma coisa que já vem sendo discutida dentro do feminismo, muito antes dele escrever esse texto. Só um exemplo, Bell Hooks[ii], pelo menos 20 anos antes dele, já discutia as problemáticas que a vitimização trazia para o feminismo e já alertava os grupos feministas que estavam seguindo está tendência. Com isso quero mostrar que a crítica que ele faz chega atrasada e, além disso, assume contornos de uma crítica conseradora e contra-feminista.
Logo no primeiro parágrafo Faun ironicamente se vitimiza ao tomar o exemplo do graffiti – “Homens Estupram.” O interessante aqui é pensar o quão ingênuo o autor se faz parecer. Primeiro ele diz acreditar que esse “homem” (referido no graffiti) se refere ao individuo concreto, quando na verdade não só ele, como qualquer ser dotado de uma mínima consciência crítica, sabe que o homem a que se refere o graffiti é o homem no sentido genérico, não o individuo Feral, Antonio, Marcos e etc., mas homem num sentido coletivo (quer ele queira, quer ele não queira) – o homem branco que colonizou a África, o homem que criou a civilização (que ele tanto odeia) e todos os seus males, o homem que espanca mulheres, etc. Com isso não quero dizer que o machismo não se manifeste em comportamentos de homens concretos e que não seja construído por homens concretos. Molly Tov tem um trecho interessante, onde ela trata desta questão e acho que pode nos ajudar a compreender:
“Todxs nós sabemos que todos homens são sexistas, assim como todos brancos são racistas, devido à nossa sociedade: pessoas brancas ainda possuem privilégios sobre as negras, e homens ainda têm privilégio sobre as mulheres. E, uma vez nascidos nesse processo é incrivelmente difícil de rompê-lo, Especialmente se você esquece de olhar para si mesmo. Quando os homens começam a se declarar ‘revolucionários’ acham que, uma vez que saibam que um problema existe, eles não são mais parte desse problema, do qual, SIM, o são.” [iii]
Em seguida Faun parte para a constatação de que o feminismo age no sentido contrário da libertação das mulheres e que, muito pelo contrário, transforma as mulheres em soldadas que servem ao medo e não à sua própria libertação. O feminismo, segundo Faun, age sobre a base da ideologia da vitimização.
Durante todo o texto ele toma o feminismo como uma coisa única, não só o feminismo como todos os movimentos que ele intitula de movimentos de libertação parcial – racial, gay, etc. Eu penso o feminismo, assim como os movimentos que ele intitula de libertação parcial, como um movimento múltiplo, de diversas correntes, tendências, etc. que se unificam sob um ponto central: pensar a emancipação feminina, dito de outra maneira, feminismo é um conjunto heterogêneo, de pessoas e grupos, que tem como objetivo pensar a superação do sistema patriarcal e a construção de um mundo mais justo para todos os seres; posso até me levar pelo seu discurso delirante e dizer que dentro de uma miríade de grupos é certo que algum ou alguns trabalhem em cima da ideologia da vitimização, mas não posso de dizer que os FEMINISMOS possuem como base a ideologia da vitimização.
A lógica de falar de determinados movimentos de uma forma que os homogeneíza é uma lógica que eu vejo, pelo menos na realidade brasileira, como sendo utilizada por jornais e outros meios de comunicação conservadores e burgueses. Tomemos o movimento estudantil como exemplo, este movimento é composto por uma miríade de grupos, organizações e tendências que fazem questão de se diferenciar e de explicitar esta diferenciação, quem faz parte de algum desses grupos sabe muito bem as diferenças e tudo o mais que ela acompanhada. Mas seguindo o caminho contrário e pra confundir as pessoas que recebem informações dessa mídia burguesa conservadora, esta mesma trata o movimento estudantil como um único movimento e tudo de ruim que um devido grupo, que toma essa bandeira, fizer será tido como uma ação do movimento estudantil como um todo. Exemplo: se o negação da negação explodir uma bomba na reitoria e matar o reitor, essa ação não será tomada como uma ação do negação da negação, mas como uma ação do movimento estudantil e assim será divulgado.
Não se escolhe ser vítima e o fato de se reconhecer como vítima, numa determinada relação e em um determinado contexto, não é, necessariamente, capaz de enfraquecer uma pessoa ou um movimento, isso necessariamente não será o centro dessas pessoas e nem de movimentos que reúnam estas pessoas. Reconhecer-se como vítima é o primeiro, ou um dos primeiros passos, que consigo enxergar como fundamental para transformação desta mesma condição. Os feminismos têm com o homem – patriarcado – a mesma relação que Faun tem com o civilizado – civilização. O discurso da vítima em algum momento toca os feminismos, assim como todo movimento que se insurge contra algum tipo de opressão, mas não ocupa um lugar central nos feminismos que conheço. Muito pelo contrário, percebo muito mais uma lógica de auto-determinação, positividade, etc. Vou usar um exemplo que causa bastante dor de cabeça nos anti-feministas: a sexualidade. Para muitas pessoas os feminismos são puritanos na sua crítica à sexualidade construída sob os moldes do patriarcado. O que essas pessoas não enxergam é que os feminismos estão lutando para que as mulheres se tornem donas dos próprios corpos e possuam controle total sobre a sua sexualidade, sendo que, no geral, essa tomada de posse da própria sexualidade expande os horizontes da sexualidade e traz em si uma crítica direta e ferrenha à moral puritana. Sendo assim, ai está um exemplo claro de ação positiva que não se encontra sob a lógica da vitimização. Poderia alongar facilmente a lista de ações positivas promovidas pelos movimentos feministas, mas não o farei neste texto.
Faun deixa a todo tempo transparecer certa sensibilidade para explicitar os desejos e os prazeres dos supostos revoltados totais, que tiveram a grande visão da totalidade dos problemas sociais, a toda hora deixa transparecer algo de subjetivo no texto. Mas espera ai! Essa subjetividade, essa sensibilidade some justamente no momento que ele vai exemplificar o argumento pouco sustentável de que o feminismo aposta na idéia de que a liberação das mulheres será dada pelos opressores. Nesse momento ele começa a contar uma suposta história ocorrida durante um fórum anarquista onde as mulheres pouco se expressavam e isso acabou sendo um problema. Tentando explicar essa falta de fala das mulheres Faun não vê nenhum elemento significante que aponte para explicar esse fato e acaba caindo na besteira de afirmar que essa situação ocorre para que as mulheres reclamem com os homens um determinado espaço e com isso reafirmem a sua condição de oprimida. Tenho certeza que Faun sabe que há ai uma série de problemáticas que passam dos limites do concreto e se encontram no interior de cada mulher, que por “n” motivos subjetivos, criados por uma determinada situação, não se sentiram a vontade de falar. Por exemplo, só o fato de se encontrar imersa num grupo majoritariamente masculino já é um fato que pode explicar satisfatoriamente o silêncio de uma mulher. E isso, todos sabem, se explica pelas condições históricas e sociais que a nossa sociedade criou e interiorizou através de inúmeros mecanismos – escola, família, cultura etc. – na quase totalidade dos indivíduos.
***
Em agosto de 2003 Gisèle Halimi escreveu um artigo para a revista Le Monde diplomatique[iv], onde comentou rapidamente sobre uma série de livros que estavam sendo publicados na França e que criticavam ferrenhamente o feminismo, tomando o mesmo como uma “empresa da vitimização”. A autora apresenta uma série de dados pra mostrar a presença ainda marcante do machismo na sociedade francesa que são bastante reveladores e por si só demonstraram a urgência da destruição da sociedade patriarcal, não me prenderei a esses dados, não interessa pra o que quero aqui. O que quero com esse exemplo é mostrar que Faun não está isolado nesse movimento de crítica negativa ao feminismo, ele se encontra justamente dentro daquilo conhecido como BACKLASH[v]. Aonde quer que os feminismos mostrem sua força, onde quer que eles afetem a realidade existente, seja entre os “libertários totais” ou nas fileiras de uma direita caduca, ele irá gerar uma reação contrária de resistência as mudanças propostas. E o que mais impressiona é a unidade existente entre a crítica de Faun e a da direita francesa, ambos se utilizam da idéia de que há uma ideologia da vitimização e uma demonização dos homens, enquanto indivíduos, presente no feminismo.
Nem tudo é cinza e chato. O texto de Faun demonstra uma coisa: os feminismos se mostram fortes o bastante pra ainda fazer tremer os cretinos.

____________________________________________________________
[i] FAUN, Feral. A Ideologia da Vitimização. Salvador: Célula zero, 2009. Disponível em: <http://celulazero.blogspot.com/2009/06/ideologia-da-vitimizacao.html> Acesso em: 11 jun. 2009.
[ii] HOOKS, Bell. Recusando-se a ser uma vítima. Brasília: Confabulando, 2008. Disponível em: <http://confabulando.naxanta.org/index.php?n=Main.Recusando-seASerUmaV%EDtima-BellHooks> Acesso em: 15 jun. 2009.
[iii] TOV, Molly. Uma mensagem para os homens anarquistas. Brasília: Confabulando, 2008. Disponível em: <http://confabulando.naxanta.org/index.php?n=Main.UmaMensagemParaOsHomensAnarquistas> Acesso em: 20 jun. 2009.
[iv] HALIMI, Gisèle. O “Complô” feminista. Brasília: Diplo, 2003. Disponível em: <http://diplo.uol.com.br/2003-08,a722> Acesso em: 20 jun. 2009.
[v] “O backlash não é uma conspiração, com um conselho emanando ordens de uma sala de controle central, e as pessoas que se prestam aos seus fins muitas vezes nem estão conscientes dos seus papéis; algumas até se consideram feministas. Na maioria dos casos, as suas maquinações são disfarçadas e ocultas, impalpáveis e camaleônicas. E tampouco podemos dizer que todas as manifestações do backlash tenham o mesmo peso e o mesmo significado; muitas não passam de coisas efêmeras, geradas por uma máquina cultural que está continuamente à cata de “novos” ângulos. Considerados em conjunto, entretanto, todos estes códigos e bajulações, estes murmúrios e ameaças e mitos, levam irreversivelmente numa única direção: tentar mais uma vez prender a mulher aos seus papéis “aceitáveis’ – seja como filhinha de papai ou criaturinha romântica, seja como procriadora ativa ou passivo objeto sexual.”
Retirado de: http://www.sof.org.br/inst_area_atua_fem_dicion.htm#Backlash