Entre linhas…

Posted in 1 on Novembro 20, 2009 by rodrigo77

moleza acabouDesculpas.

Justificativas para minha “moleza”(?).

Uma suposta necessidade de esperar por alguma coisa: Não sei se amadurecimento. Sinto que com o passar do tempo as coisas ficam mais concretas pra mim. Me sinto mais preparado pra algumas coisas. Mas sinto um atraso estranho em minha vida, que não entendo muito bem. É como se eu tivesse nascido antes do tempo, aquela historia da minha idade real não corresponder à idade que sinto ter. E nesse processo de análise, tento acompanhar melhor o momento em que estou na vida, de ir atrás da minha independência financeira, etc. De uma forma geral, ingressar na vida adulta, que sinto ter minhas resistências e questionamentos. Medos também. Vontade dual. E busco sair disso… dessa dualidade toda, que resulta em eu não conseguir firmar o que quero definidamente. Uma mania, idéia a que me fixei bastante entre a pré-adolescência e a adolescência, de achar que poderia ter “tudo”, que poderia fazer “tudo” do jeito que eu achava melhor. Achava que o possível era algo bem simples. Não enxergava muitas dificuldades nas coisas, apesar disso ter quase me levado à loucura algumas vezes. Percebo que trago muitas coisas da infância e juventude (da qual ainda não saí) para o hoje em dia, e como algumas vezes acabo ficando preso e me embolando. Pensando agora, talvez eu tenha ficado preso em algum momento de minha vida, resultando nesse atraso e uma agonizante e confusa mistura de lentidão com pressa.

Indefinição, indeterminação, indireção.

———

Escrevi esse texto em algum momento de introspecção, reflexão profunda, e engraçado, terminei com 3 palavras um tanto soltas, que me fizeram pensar sobre um outro textinho que escrevi, sobre bom ou ruim, certo e errado. Na verdade, sobre o que estaria entre esses duos. Talvez, apenas um semi-texto… ou um quase-texto.


“aberto ou fechado

certo ou errado

feio ou bonito

consigo enxergar tantas possibilidades nessas “entrelinhas”

que na verdade não está entre linha nenhuma

e tem ficado tão na cara como as outras possibilidades q vêm”

Da UNIBAN à “Toda enfiada”

Posted in 1 with tags , , , , on Novembro 12, 2009 by irisnery

post UNIBAN

Ultimamente tenho achado importante a manifestação, mesmo que virtual, sobre fatos que vem acontecendo, e que as vezes passam batidos. Penso que é importante não ficarmos caladxs, e esta foi a motivação para esse post.

O fato ocorrido dessa vez não foi alvo do silêncio, pelo contrário: estou me referindo ao caso Geyse Arruda, a [agora] famosa “estudante da UNIBAN”. Penso que a violência simbólica e a iminência de violência física e de abuso sexual sofridas por ela é totalmente repudiável. Quem assistiu ao vídeo pode comprovar quê o que houve foi uma catarse coletiva de violência sexista apoiada na dicotomia presente no nosso imaginário, de origem judaico-cristã, entre “a puta” x “a submissa”.

À despeito da grande repercussão negativa, que levou à diretoria cancelar a expulsão da aluna[1], as formas de repúdio, como tenho visto, tem sido diversas, e nem sempre sensatas.

Vou me deter em uma: tem sido comum a comparação do ato discriminatório cometido pelos alunos com as chamadas tradições orientais – como a imposição do uso da burca pelas mulheres . É como se eles, orientais, representassem por si a opressão e o tradicionalismo, e nós, ocidentais, a modernidade, e a liberdade, o fim das opressões.

Essa auto-representação da modernidade tem como marco o Iluminismo, que se julgava libertador dos homens, das amarras das antigas tradições e privilégios feudais, tendo como ferramenta o uso da razão. Hoje fica claro o quanto esse é um pseudo-universalismo, que na verdade reflete desejos e ambições bastante situados: liberdade, igualdade e fraternidade para pessoas do sexo masculino, brancos, ocidentais e proprietários.

Foi esse mesmo pensamento que moveu e ainda move catástrofes etnocêntricas [2], como a guerra do Iraque – e mais uma pá de outras guerras -, em nome da liberdade a ser estabelecida por nós, num místico Oriente. (Liberdade essa selada com soldados estuprando mulheres “não-liberadas”..).

Também na questão da clitoridectomia o etnocentrismo é muito visível: julgamos práticas, como essa, inconcebíveis. Ela é objeto de repúdio por parte das nações unidas, órgãos de direitos humanos e ONG’s feministas, sem qualquer questionamento sobre as nossas práticas que agem sobre o corpo da mulher de modo a “otimizá-lo” (sim, é como se fôssemos objeto..), como a cirurgia plástica, que, nos seios pode levar à insensibilidade – tal como ocorre na clitoridectomia. Tudo em nome da beleza…para agradar a quem? E o quê dizer das plásticas genitais para o estreitamento do canal vaginal?

Como coloca Ella Shohat [3], temos que estar atentas para não cairmos num feminismo colonizador e monocultural – uma crítica necessária para que as nossas lutas, plurais, sejam eficientes e livres de toda hierarquia:

“Quando mulheres participam de práticas opressivas, como nós, como feministas, devemos reagir a elas? A questão fica mais complicada em uma perspectiva dos direitos humanos e do cruzamento internacional das fronteiras. A princípio, essas mulheres podem pedir asilo nos Estados Unidos como refugiadas, alegando que sofrem uma opressão de gênero (a clitoridectomia). No entanto, elas só podem solicitar entrada nos Estados Unidos se a natureza “bárbara” de sua cultura for reforçada aos olhos ocidentais. As feministas eurocêntricas lutam para salvar as mulheres africanas de uma forma que reproduz os discursos coloniais sobre a África. [...] Simplesmente discutir a clitoridectomia como bárbara apaga as lutas das mulheres no Quênia ou no Egito contra tais práticas e anula a complexidade das culturas africanas, que não podem ser reduzidas a essas práticas. O problema, assim, não é somente a prática, mas que narrativa colocamos em ação para resistir a essas práticas. O desafio é evitar as fantasias salvadoras _ que nos levam de volta às narrativas coloniais. Eu me lembro do filme Around the World in 80 Days, em que David Niven salva uma princesa indiana (Shirley McLaine) da sati (a cremação da viúva). Hoje, são as feministas eurocêntricas que representam o papel de heroínas das narrativas modernizadoras. Implícita nessa narrativa salvadora está a suposição de que o “ocidente” superou sua própria opressão de gênero.”

Retornando ao fato ocorrido e à comparação do ato discriminatório com as chamadas tradições orientais, é notável a associação UNIBAN – Talibã entre xs indignadxs, denotando uma suposta regressão a um estágio de civilização anterior, e bestialidade daqueles que lá estudam. O 11 de setembro serviu como marco histórico do ímpeto colonizador cujo bode expiatório foi o talibã. O ato de atribuir sempre ao Outro – e esse grande e longínquo Outro que constitui o oriente ao longo da nossa história – as atitudes de intolerância limpam a nossa barra e impede de nos voltarmos para nós mesmos.

O autoquestionamento é vital para identificarmos a intolerância como constituinte das nossas próprias práticas. O brasil é um país conhecido como “país do carnaval”, da liberdade sexual – visível em nossas mulheres sensuais, e com poucas roupas. Ficam as perguntas: São todas as mulheres que possuem o aval social para usar poucas roupas? Como são seus corpos? O que essas roupas visibilizam? A cena que vemos no vídeo que levou à demissão da professora baiana diz respeito a mais um aspecto da nossa imensa “liberdade” enquanto brasileirxs: há igualdade entre os corpos “enfiáveis” e os não-enfiáveis [4]? Quem está com pouca roupa?

Acredito que, assim como o total apagamento do corpo da mulher sob a forma da burca, também a nudez/seminudez é política.

Notas:

[1] Sob o regime do patriarcado capitalista, é comum identificar a vítima como causadora da sua própria desgraça. Em casos de estupro, fala-se que “ela pediu por isso, pois estava de saia”. No caso UNIBAN, eis o que foi publicado:

“Com o término da sindicância e da apuração dos fatos, a universidade decidiu desligar Geisy de seu quatro de estudantes por entender que ela foi responsável, que provocou a situação com sua atitude”, afirmou ao Estado o assessor jurídico da Uniban, Décio Lencioni Machado. “Nunca tinha acontecido isso e outras meninas usam vestidos e saias curtas. Ocorreu com ela por causa de sua atitude em querer aparecer, desfilar na rampa, tirar fotos e passar pelas salas”, justifica.”

[2] Segundo a wikipédia: ” Etnocentrismo é um conceito antropológico, segundo o qual a visão ou avaliação que um indivíduo ou grupo de indivíduos faz de um grupo social diferente do seu é apenas baseada nos valores, referências e padrões adotados pelo grupo social ao qual o próprio indivíduo ou grupo fazem parte. Essa avaliação é, por definição, preconceituosa, feita a partir de um ponto de vista específico.”

[3] COSTA, CLAUDIA DE LIMA. Feminismo Fora do Centro: Entrevista com Ella Shohat. Rev. Estud. Fem. [online]. 2001, vol.9, n.1, pp. 147-163 . Disponível aqui.

[4] A fantástica Roswitha Scholz escreveu uma passagem que vem a calhar: “É de notar, não em último lugar, que em todo o debate sobre o terrorismo as mulheres mais uma vez se tornam um signo no mundo ocidental. Invocam-se as mulheres oprimidas dos talibãs para fazer propaganda belicista com a desumanidade dos “bárbaros”. As mulheres são a moeda com que se especula. O lado belicista ocidental, incluindo os seus apoiantes de esquerda, às vezes até dá a impressão de que as bombas são lançadas sobre o Afeganistão precisamente para libertar as mulheres. [...]  Os Talibãs bárbaros como inimigos das mulheres e adversários dos “perversos” são assim transformados em mera superfície de projecção para poder esconder completamente, na celebração da civilidade burguesa, a relação básica de género inimiga das mulheres e compulsivamente heterossexual que serve de fundamento à sociedade burguesa.”

[5] Referência à música “Toda enfiada”.

 

[4] Roswitha Scholz escreveu uma passagem que vem a calhar: “É de notar, não em último lugar, que em todo o debate sobre o terrorismo as mulheres mais uma vez se tornam um signo no mundo ocidental. Invocam-se as mulheres oprimidas dos talibãs para fazer propaganda belicista com a desumanidade dos “bárbaros”. As mulheres são a moeda com que se especula. O lado belicista ocidental, incluindo os seus apoiantes de esquerda, às vezes até dá a impressão de que as bombas são lançadas sobre o Afeganistão precisamente para libertar as mulheres. [...]  Os Talibãs bárbaros como inimigos das mulheres e adversários dos “perversos” são assim transformados em mera superfície de projecção para poder esconder completamente, na celebração da civilidade burguesa, a relação básica de género inimiga das mulheres e compulsivamente heterossexual que serve de fundamento à sociedade burguesa.”

ESTAMOS FAZENDO MULHERZINHAS E MACHÕES??

Posted in 1 on Novembro 7, 2009 by Antonio Henrique

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Toda última segunda feira do mês na lapa, maior estação de ônibus de salvador, ocorre uma vigília que busca chamar atenção para a violência contra as mulheres. Acontece que na vigília deste mês de novembro ocorreu a intervenção do coletivo mulheres na rua – um coletivo feminista!

- Feminista!?

- Sim, feminista!

Para alguns elas morreram ou desistiram entre a década de 1970 e 80, para outrxs elas caíram na repetição, chatice e descrédito que toda esquerda parece ter caído, e ainda, para outrxs, elas são problemáticas que vivem a reclamar de coisas inexistentes, que só existem na cabeça delas; mas para elas é diferente. Para elas o feminismo não é coisa do passado, não é chato e muito menos caiu em descrédito, o feminismo é uma forma de existir e pensar o mundo sem a opressão de um gênero sobre o outro, portanto, haverá feminismo enquanto os homens odiarem as mulheres.

Numa intervenção, intitulada “brinquedos e a construção do gênero”, que se encaixaria facilmente no dia das crianças, o coletivo ocupou parte do vão central da lapa expondo uma maquete que problematizava a questão da construção social dos gêneros (homem-mulher), que facilita a subordinação das mulheres aos homens, através da exposição de uma micro cena social, composta por brinquedos. Os brinquedos chamaram bastante atenção dxs transeuntes pois, de maneira geral, é algo eu fez e faz parte da vida delxs em algum momento, seja quando foram crianças e tiveram brinquedos, quando adultxs e presentearam crianças com brinquedos, etc. Esse é um dos motivos que pode explicar a intensa movimentação que ocorreu, e, por sua vez, a intensa movimentação demonstra o interesse dos que passavam pela problematização da ordem patriarcal. O que parecia ser óbvio e natural – brincadeiras onde meninas assumem o lado de personagens “boas” e meninos de “maus” – foi posto em crise e em lugar deste esquema opressor foi aberta a possibilidade de se pensar outro mundo, outra forma de se educar as crianças, outras formas de brincadeiras, longe do opressor esquema habitado por “machões e menininhas?”.

Pra dar suporte à intervenção o coletivo distribuiu o seguinte panfleto:

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O coletivo promete promover mais ações nas ruas de salvador. Vamos aguardar e na medida do possível cobrirei estas ações.

Links do coletivo:

Blog – http://mulheresnarua.wordpress.com/
Flickr – http://www.flickr.com/photos/mulheresnarua

A nossa crença na Razão # 1

Posted in 1 on Outubro 24, 2009 by carlarrrr

Colocar a Razão em questão não é algo tão simples como comumente achamos simples perguntar por algo. E isso, penso eu, tem um fundo: a consciência de que somos seres racionais.

Uma inquietação do destemidx rodrigo em relação à nossa “confiança” na razão, despertou em mim a vontade de escrever aqui algo sobre. No entanto, desde então, aporias foram aparecendo. Primeiro, achei necessário para tal escrita um diálogo filosófico – quem melhor para falar sobre a razão do que a filosofia? Não obstante, eu estaria me valendo de uma produção intelectual, de uma produção que se funda no lógos (razão, discurso racional). Eu fugiria, pois, da “neutralidade” reclamada por rodrigo.

Como falar acerca da razão, pois? Como colocar essa razão em jogo? As aporias me fazem acreditar que a partir do próprio domínio  racional.

Na minha compreensão, para que eu possa tocar a questão, seria preciso discorrer sobre o que seja a razão, pensando sempre que o “racional” é um fenômeno tipicamente filosófico (se tomarmos o caminho apontado por Heidegger em saber o que é a filosofia: o grego), possuindo história, contexto. Seria necessário também, na verdade está intríseco, uma discussão de base epistemológica (o que seja conhecimento, como se conhece, o que se conhece…). E já que muito me escapa, tentaria eu tomar uma ou duas discussões no âmbito da filosofia como referência.

Confesso que, delimitar a abordagem não é fácil. Por isso, penso que não devo seguir um caminho retilíneo, mas sim cruzar olhares e assim ir tocando no tal pressuposto da “crença na razão” que levantei.

Colocar a razão em questão, não é necessariamente dizer que acreditamos na razão (crença e razão são excludentes naquele caminho). Porém, temos ou não crença na razão?

 

 

 

 

*gostaria de enfatizar que o debate é velho na filosofia.

*vale necessariamente a crítica feminista à razão androcêntrica.

Sonhadorxs despertxs!

Posted in 1 on Outubro 16, 2009 by carlarrrr

1.

“Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.” – Drummond

(tempos modernos)

(tempos modernos)

A sociedade contemporânea em seu aspecto de alienação e fatalismo, diz-nos: o mundo é este, coisa.

Materializando Hegel, Marx e Engels haviam dito: os indivíduos produzem historicamente o mundo.

O mundo não é, o mundo está sendo, pois.

No entanto, temos a impressão de que o que existe é exterior a nós.

O segredo está no fetichismo da mercadoria, diz Marx.

(trabalhar e consumir)

(trabalhar e consumir)

2. Trago a fantástica Emma Goldman:

“Nenhum estudante inteligente negaria a importância do fator econômico do progresso social e no desenvolvimento da humanidade. Mas só um espírito obtuso e obstinadamente doutrinário se recusará a ver o papel importante da idéia, enquanto concepção da imaginação e resultado das aspirações do homem.”

(emma goldman)

(emma goldman)

“A regeneração da humanidade não se alcançará sem a aspiração, a força energética de um ideal. Este ideal, para mim, é a anarquia (…).”

1 e 2. É pertinente esboçar uma crítica à sociedade contemporânea, na qual inúmeros indivíduos são forçados a sobreviver apenas – e na condição de coisa. Crítica esta que deve comportar o modo de produção capitalista (atualmente neoliberal), necessariamente.

Consciente, não invisto, no entanto, na revolução das estruturas materiais de produção. Historicamente, o socialismo russo é a prova de que o fator econômico não é tudo. Abaixo o determinismo econômico. [1]

2. Não obstante, possuo a convicção de que podemos construir um outro mundo. Sim, podemos! Só não creio, como a Goldman, na regeneração da humanidade, mas aposto no IDEAL anarquista (eu tenho uma concepção muito própria de anarquismo).

3. Deixei de ser favorável à extinção humana voluntária, pois esta, para mim, é covardia enquanto ato histórico (depois de desnortearmos o planeta simplesmente “sumimos” deixando os outros seres ao sabor dos males que produzimos?). Diria ser favorável à extinção de determinados ethos.

4 e 1. Mesmo sonhando, mesmo vivendo um ideal, estamos despertos – e não pode ser diferente: existem problemas estruturais, tais como o machismo, o racismo, o desemprego; o tecido social fragmentou-se absurdamente não possuindo sequer, força de pressão; e possuímos amarras demasiadamente fortes que teimam em nos prender.

|O/

|O/

5.

“… a vida, a vida, a vida

a vida só é possível

reinventada.”

Assim diz Cecília Meireles.

Pois bem, quais são as nossas experiências de reinventar a vida, de criar outros mundos, de produzir momentos menos hostis e menos opressores…?!

6. Dizem que só podemos ser livres nos sonhos. Que assim seja! Mas dizem também que a libertação dá-se no próprio ato de libertação. Quais são os atos de libertação que forjamos?*

* a essência da liberdade dá-se no fenômeno da libertação.

1, 2, 3, 4, 5 e 6. NÓS PODEMOS! AVANTE!

DESTEMIDXS!!!

RELATO DE EXPERIÊNCIA.

Bike é autonomia.

No início do ano, eu e a amiga jacq pedalamos da cidade onde moramos até uma próxima (16km). A sensação foi fantástica! Primeiro, andar de bicicleta em si é fantástico: você determina a direção e o lugar; você é a energia usada no deslocamento; você sente o sol, a chuva, o cheiro de verde se no mato, o cheiro de poluição se no asfalto. Vai parecer piegas (que pareça – razão para que me insultem? hehehehe), mas é quase inexprimível tal sensação!

Depois, andar de bicicleta em uma ‘BR’ não é o mesmo que andar de bicicleta no seu quarteirão e até que andar de bicicleta no ‘trânsito’! É desafiar um espaço próprio de carros e de caminhões! Não existe passeio para os andarilhos! E existem andarilhos nas estradas – pena não tê-los visto!

E como é solitária a estrada! E justamente nessa solidão, ela parece guardar algo de humano… Eu vi muitos morros, muitas árvores… e a gente sente a ligação!

E eu estava com uma amiga!

Ao voltarmos para casa: “Duas meninas de bicicleta em uma estrada deserta e perigosa como aquela?!!!”.

— sair dos espaços nos quais teimam em nos colocar. ultrapassar fronteiras. ficar na encruzilhada.

 

[1] acerca do determinismo econômico não refiro-me ao Marx, mas sim às suas interpretações, ao marxismo ortodoxo, por exemplo.

Resposta a Feral Faun.

Posted in 1 on Outubro 12, 2009 by Antonio Henrique

Resposta a Feral Faun.

Admito que por algum tempo nutri certa esperança e tive uma visão otimista de todo o discurso primitivista, anarco-primitivista, anarquista verde, queira você chamar do que quiser. Essa esperança aos poucos foi se desmanchando e hoje acredito que uma boa parte, mas não tudo, destes supostos teórico-práticos é conversa pra boi dormir e às vezes chego a pensar que são cópias mal-feitas e mal pesadas do Hakim Bey misturadas a uma antropologia de esquina.

Hoje me deparei com o texto chamado “A ideologia da vitimização” do Feral Faun[i] e sinceramente a primeira coisa que me perguntei ao terminar de lê-lo foi: qual o objetivo? Quais as razões desse texto? Feral é um cretino ou um ingênuo? Mas no fundo, independente das perguntas que tenha me feito, sei que tudo indica que ele é apenas um homem, um branco, um norte-americano e um heterossexual a reclamar de movimentos que atacam a posição social que ele ocupa.

O texto todo transcorre em cima da idéia de que determinados movimentos “radicais” de libertação parcial (movimento de mulheres, gay, raciais, étnicos, etc.) acabam por reproduzir ou assimilar uma lógica que é própria de uma mídia maldosa que vive a transmitir noticias ruins objetivando criar nos ouvintes, telespectadores, leitores um mal-estar que vem acompanhado de um sentimento de medo, que se generaliza nos indivíduos, transformando-se numa ideologia que irá guiá-los no sentido de impedi-los de alcançar o gozo revolucionário. È isso que Faun intitula ideologia da vitimização. E é essa ideologia que o autor tenta associar com o feminismo. Aqui acho que vale citar que isso que o Faun tenta denunciar com um certo ar de ineditismo é uma coisa que já vem sendo discutida dentro do feminismo, muito antes dele escrever esse texto. Só um exemplo, Bell Hooks[ii], pelo menos 20 anos antes dele, já discutia as problemáticas que a vitimização trazia para o feminismo e já alertava os grupos feministas que estavam seguindo está tendência. Com isso quero mostrar que a crítica que ele faz chega atrasada e, além disso, assume contornos de uma crítica conseradora e contra-feminista.

Logo no primeiro parágrafo Faun ironicamente se vitimiza ao tomar o exemplo do graffiti – “Homens Estupram.” O interessante aqui é pensar o quão ingênuo o autor se faz parecer. Primeiro ele diz acreditar que esse “homem” (referido no graffiti) se refere ao individuo concreto, quando na verdade não só ele, como qualquer ser dotado de uma mínima consciência crítica, sabe que o homem a que se refere o graffiti é o homem no sentido genérico, não o individuo Feral, Antonio, Marcos e etc., mas homem num sentido coletivo (quer ele queira, quer ele não queira) – o homem branco que colonizou a África, o homem que criou a civilização (que ele tanto odeia) e todos os seus males, o homem que espanca mulheres, etc. Com isso não quero dizer que o machismo não se manifeste em comportamentos de homens concretos e que não seja construído por homens concretos. Molly Tov tem um trecho interessante, onde ela trata desta questão e acho que pode nos ajudar a compreender:

“Todxs nós sabemos que todos homens são sexistas, assim como todos brancos são racistas, devido à nossa sociedade: pessoas brancas ainda possuem privilégios sobre as negras, e homens ainda têm privilégio sobre as mulheres. E, uma vez nascidos nesse processo é incrivelmente difícil de rompê-lo, Especialmente se você esquece de olhar para si mesmo. Quando os homens começam a se declarar ‘revolucionários’ acham que, uma vez que saibam que um problema existe, eles não são mais parte desse problema, do qual, SIM, o são.”  [iii]

Em seguida Faun parte para a constatação de que o feminismo age no sentido contrário da libertação das mulheres e que, muito pelo contrário, transforma as mulheres em soldadas que servem ao medo e não à sua própria libertação. O feminismo, segundo Faun, age sobre a base da ideologia da vitimização.

Durante todo o texto ele toma o feminismo como uma coisa única, não só o feminismo como todos os movimentos que ele intitula de movimentos de libertação parcial – racial, gay, etc. Eu penso o feminismo, assim como os movimentos que ele intitula de libertação parcial, como um movimento múltiplo, de diversas correntes, tendências, etc. que se unificam sob um ponto central: pensar a emancipação feminina, dito de outra maneira, feminismo é um conjunto heterogêneo, de pessoas e grupos, que tem como objetivo pensar a superação do sistema patriarcal e a construção de um mundo mais justo para todos os seres; posso até me levar pelo seu discurso delirante e dizer que dentro de uma miríade de grupos é certo que algum ou alguns trabalhem em cima da ideologia da vitimização, mas não posso de dizer que os FEMINISMOS possuem como base a ideologia da vitimização.

A lógica de falar de determinados movimentos de uma forma que os homogeneíza é uma lógica que eu vejo, pelo menos na realidade brasileira, como sendo utilizada por jornais e outros meios de comunicação conservadores e burgueses. Tomemos o movimento estudantil como exemplo, este movimento é composto por uma miríade de grupos, organizações e tendências que fazem questão de se diferenciar e de explicitar esta diferenciação, quem faz parte de algum desses grupos sabe muito bem as diferenças e tudo o mais que ela acompanhada. Mas seguindo o caminho contrário e pra confundir as pessoas que recebem informações dessa mídia burguesa conservadora, esta mesma trata o movimento estudantil como um único movimento e tudo de ruim que um devido grupo, que toma essa bandeira, fizer será tido como uma ação do movimento estudantil como um todo. Exemplo: se o negação da negação explodir uma bomba na reitoria e matar o reitor, essa ação não será tomada como uma ação do negação da negação, mas como uma ação do movimento estudantil e assim será divulgado.

Não se escolhe ser vítima e o fato de se reconhecer como vítima, numa determinada relação e em um determinado contexto, não é, necessariamente, capaz de enfraquecer uma pessoa ou um movimento, isso necessariamente não será o centro dessas pessoas e nem de movimentos que reúnam estas pessoas. Reconhecer-se como vítima é o primeiro, ou um dos primeiros passos, que consigo enxergar como fundamental para transformação desta mesma condição.  Os feminismos têm com o homem – patriarcado – a mesma relação que Faun tem com o civilizado – civilização. O discurso da vítima em algum momento toca os feminismos, assim como todo movimento que se insurge contra algum tipo de opressão, mas não ocupa um lugar central nos feminismos que conheço. Muito pelo contrário, percebo muito mais uma lógica de auto-determinação, positividade, etc. Vou usar um exemplo que causa bastante dor de cabeça nos anti-feministas: a sexualidade. Para muitas pessoas os feminismos são puritanos na sua crítica à sexualidade construída sob os moldes do patriarcado. O que essas pessoas não enxergam é que os feminismos estão lutando para que as mulheres se tornem donas dos próprios corpos e possuam controle total sobre a sua sexualidade, sendo que, no geral, essa tomada de posse da própria sexualidade expande os horizontes da sexualidade e traz em si uma crítica direta e ferrenha à moral puritana.  Sendo assim, ai está um exemplo claro de ação positiva que não se encontra sob a lógica da vitimização. Poderia alongar facilmente a lista de ações positivas promovidas pelos movimentos feministas, mas não o farei neste texto.

Faun deixa a todo tempo transparecer certa sensibilidade para explicitar os desejos e os prazeres dos supostos revoltados totais, que tiveram a grande visão da totalidade dos problemas sociais, a toda hora deixa transparecer algo de subjetivo no texto. Mas espera ai! Essa subjetividade, essa sensibilidade some justamente no momento que ele vai exemplificar o argumento pouco sustentável de que o feminismo aposta na idéia de que a liberação das mulheres será dada pelos opressores. Nesse momento ele começa a contar uma suposta história ocorrida durante um fórum anarquista onde as mulheres pouco se expressavam e isso acabou sendo um problema. Tentando explicar essa falta de fala das mulheres Faun não vê nenhum elemento significante que aponte para explicar esse fato e acaba caindo na besteira de afirmar que essa situação ocorre para que as mulheres reclamem com os homens um determinado espaço e com isso reafirmem a sua condição de oprimida. Tenho certeza que Faun sabe que há ai uma série de problemáticas que passam dos limites do concreto e se encontram no interior de cada mulher, que por “n” motivos subjetivos, criados por uma determinada situação, não se sentiram a vontade de falar. Por exemplo, só o fato de se encontrar imersa num grupo majoritariamente masculino já é um fato que pode explicar satisfatoriamente o silêncio de uma mulher. E isso, todos sabem, se explica pelas condições históricas e sociais que a nossa sociedade criou e interiorizou através de inúmeros mecanismos – escola, família, cultura etc. – na quase totalidade dos indivíduos.

***

Em agosto de 2003 Gisèle Halimi escreveu um artigo para a revista Le Monde diplomatique[iv], onde comentou rapidamente sobre uma série de livros que estavam sendo publicados na França e que criticavam ferrenhamente o feminismo, tomando o mesmo como uma “empresa da vitimização”. A autora apresenta uma série de dados pra mostrar a presença ainda marcante do machismo na sociedade francesa que são bastante reveladores e por si só demonstraram a urgência da destruição da sociedade patriarcal, não me prenderei a esses dados, não interessa pra o que quero aqui. O que quero com esse exemplo é mostrar que Faun não está isolado nesse movimento de crítica negativa ao feminismo, ele se encontra justamente dentro daquilo conhecido como BACKLASH[v]. Aonde quer que os feminismos mostrem sua força, onde quer que eles afetem a realidade existente, seja entre os “libertários totais” ou nas fileiras de uma direita caduca, ele irá gerar uma reação contrária de resistência as mudanças propostas. E o que mais impressiona é a unidade existente entre a crítica de Faun e a da direita francesa, ambos se utilizam da idéia de que há uma ideologia da vitimização e uma demonização dos homens, enquanto indivíduos, presente no feminismo.

Nem tudo é cinza e chato. O texto de Faun demonstra uma coisa: os feminismos se mostram fortes o bastante pra ainda fazer tremer os cretinos.

se vc nao esta buscando uma solução

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[i] FAUN, Feral. A Ideologia da Vitimização. Salvador: Célula zero, 2009. Disponível em: <http://celulazero.blogspot.com/2009/06/ideologia-da-vitimizacao.html> Acesso em: 11 jun. 2009.

[ii] HOOKS, Bell. Recusando-se a ser uma vítima. Brasília: Confabulando, 2008. Disponível em: <http://confabulando.naxanta.org/index.php?n=Main.Recusando-seASerUmaV%EDtima-BellHooks> Acesso em: 15 jun. 2009.

[iii] TOV, Molly. Uma mensagem para os homens anarquistas. Brasília: Confabulando, 2008. Disponível em:  <http://confabulando.naxanta.org/index.php?n=Main.UmaMensagemParaOsHomensAnarquistas>  Acesso em: 20 jun. 2009.

[iv] HALIMI, Gisèle. O “Complô” feminista. Brasília: Diplo, 2003. Disponível em:  <http://diplo.uol.com.br/2003-08,a722> Acesso em: 20 jun. 2009.

[v] “O backlash não é uma conspiração, com um conselho emanando ordens de uma sala de controle central, e as pessoas que se prestam aos seus fins muitas vezes nem estão conscientes dos seus papéis; algumas até se consideram feministas. Na maioria dos casos, as suas maquinações são disfarçadas e ocultas, impalpáveis e camaleônicas. E tampouco podemos dizer que todas as manifestações do backlash tenham o mesmo peso e o mesmo significado; muitas não passam de coisas efêmeras, geradas por uma máquina cultural que está continuamente à cata de “novos” ângulos. Considerados em conjunto, entretanto, todos estes códigos e bajulações, estes murmúrios e ameaças e mitos, levam irreversivelmente numa única direção: tentar mais uma vez prender a mulher aos seus papéis “aceitáveis’ – seja como filhinha de papai ou criaturinha romântica, seja como procriadora ativa ou passivo objeto sexual.”

Retirado de: http://www.sof.org.br/inst_area_atua_fem_dicion.htm#Backlash

Pequena nota sobre o cabelaço.

Posted in 1 on Outubro 9, 2009 by Antonio Henrique

antiracism05

Essa semana aconteceu em salvador um Cabelaço, manifestação em repúdio a ação racista perpetrada contra Isabel Ribeiro, em decorrência da sua cor de pele e do seu cabelo. Uma destemida esteve presente com o seu outro coletivo, Mulheres na Rua, e participou de toda movimentação.

Relato do acontecido por Isabel Ribeiro:  “Sábado, no Ondina Apart Hotel, estávamos, eu, Isabel Ribeiro, Maria Lúcia Silva e Maria Helena Santos, ambas psicológas do Instituto Amma Psique, São Paulo, numa reunião de trabalho, no restaurante do referido Hotel, já estavamos de saída quando uma mulher branca acompanhada de um homem, começou a falar em alto e bom tom o quanto achava nojento e o quanto detestava o meu cabelo, voltei, peguntei se falava comigo, e ela respondeu, é com voce mesmo repetindo tudo com raiva, nessa altura Lúcia e Helena que estavam um pouco à frente voltaram pra perguntar o que acontecia, expliquei, diante da perplexidade delas, a mulher repetiu mais uma vez, dessa vez acrescentando, saiam daqui! Bom esse é o resumo do evento, fomos para a delegacia, fizemos Boletim de Ocorrencia.”

Não querendo nem um pouco entender o que se passa na cabeça daqueles que agem de tal maneira, eu quero explicitar o meu repúdio ao ato racista e as pessoas que o levaram a cabo. E quero deixar claro que acredito que este fato não seja pontual em nossa sociedade; assim como o machismo, o racismo é algo estrutural em nossa sociedade pós-colonial.

Pra finalizar vou deixar aqui duas coisa: uma é o video feito pelo coletivo Mulheres na Rua

e a outra é um texto da escritora negra, feminista e norte-americana Alice Walker chamado “Cabelo oprimido é um teto para o cérebro” (http://confabulando.naxanta.org/index.php?n=Main.AliceWalker-CabeloOprimido%C9UmTetoParaOC%E9rebro). Não deixem de conferir os dois links e aguardem noticias relativas a um novo cabelaço que vai acontecer. Espero que todos que se sentirem tocados com o fato apareçam.

Posted in 1 on Outubro 3, 2009 by Antonio Henrique

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Manifesto contra a criminalização das mulheres que praticam aborto

Posted in 1 with tags , , on Setembro 29, 2009 by Antonio Henrique

Então, não queria atropelar o post de rodrigo (a conversa por lá não deve parar por causa desse post aqui), mas é inevitável.

Hoje é o dia latino americano e caribenho de luta pela legalização do aborto. De forma simbólica diversas pessoas estão postando algum texto em seus blogs e enviando textos por e-mail.  E é isso que quero aqui, através do  “Manifesto contra a criminalização das mulheres que praticam aborto” marcar espaço e tentar conversar sobre isso aqui no espaço dos comentários, pois há ai uma serie de coisas que acho que são problemáticas e bastante férteis para o debate.

Manifesto contra a criminalização das mulheres que praticam aborto

Em defesa dos direitos das mulheres

aborto2

Centenas de mulheres no Brasil estão sendo perseguidas, humilhadas e condenadas por recorrerem à prática do aborto. Isso ocorre porque ainda temos uma legislação do século passado – 1940 –, que criminaliza a mulher e quem a ajudar.

A criminalização do aborto condena as mulheres a um caminho de clandestinidade, ao qual se associam graves perigos para as suas vidas, saúde física e psíquica, e não contribui para reduzir este grave problema de saúde pública.

As mulheres pobres, negras e jovens, do campo e da periferia das cidades, são as que mais sofrem com a criminalização. São estas que recorrem a clínicas clandestinas e a outros meios precários e inseguros, uma vez que não podem pagar pelo serviço clandestino na rede privada, que cobra altíssimos preços, nem podem viajar a países onde o aborto é legalizado, opções seguras para as mulheres ricas.

A estratégia dos setores ultraconservadores, religiosos, intensificada desde o final da década de 1990, tem sido o “estouro” de clínicas clandestinas que fazem aborto. Os objetivos destes setores conservadores são punir as mulheres e levá-las à prisão. Em diferentes Estados, os Ministérios Públicos, ao invés de garantirem a proteção das cidadãs, têm investido esforços na perseguição e investigação de mulheres que recorreram à prática do aborto. Fichas e prontuários médicos de clínicas privadas que fazem procedimento de aborto foram recolhidos, numa evidente disposição de aterrorizar e criminalizar as mulheres. No caso do Mato Grosso do Sul, foram quase 10 mil mulheres ameaçadas de indiciamento; algumas já foram processadas e punidas com a obrigação de fazer trabalhos em creches, cuidando de bebês, num flagrante ato de violência psicológica contra estas mulheres.

A estas ações efetuadas pelo Judiciário somam-se os maus tratos e humilhação que as mulheres sofrem em hospitais quando, em processo de abortamento, procuram atendimento.  Neste mesmo contexto, o Congresso Nacional aproveita para arrancar manchetes de jornais com projetos de lei que criminalizam cada vez mais as mulheres. Deputados elaboram Projetos de Lei como o “bolsa estupro”, que propõe uma bolsa mensal de um salário mínimo à mulher para manter a gestação decorrente de um estupro. A exemplo deste PL, existem muitos outros similares.

A criminalização das mulheres e de todas as lutas libertárias é mais uma expressão do contexto reacionário, criado e sustentado pelo patriarcado capitalista globalizado em associação com setores religiosos fundamentalistas. Querem retirar direitos conquistados e manter o controle sobre as pessoas, especialmente sobre os corpos e a sexualidade das mulheres.

Ao contrário da prisão e condenação das mulheres, o que necessitamos e queremos é uma política integral de saúde sexual e reprodutiva que contemple todas as condições para uma prática sexual segura.

A maternidade deve ser uma decisão livre e desejada e não uma obrigação das mulheres. Deve ser compreendida como função social e, portanto, o Estado deve prover todas as condições para que as mulheres decidam soberanamente se querem ou não ser mães, e quando querem. Para aquelas que desejam ser mães devem ser asseguradas condições econômicas e sociais, através de políticas públicas universais que garantam assistência a gestação, parto e puerpério, assim como os cuidados necessários ao desenvolvimento pleno de uma criança: creche, escola, lazer, cultura, saúde.

As mulheres que desejam evitar gravidez devem ter garantido o planejamento reprodutivo e as que necessitam interromper uma gravidez indesejada deve ser assegurado o atendimento ao aborto legal e seguro no sistema público de saúde.

Neste contexto, não podemos nos calar!

Nós, sujeitos políticos, movimentos sociais, organizações políticas, lutadores e lutadoras sociais e pelos diretos humanos, reafirmamos nosso compromisso com a construção de um mundo justo, fraterno e solidário, nos rebelamos contra a criminalização das mulheres que fazem aborto, nos reunimos nesta Frente para lutar pela dignidade e cidadania de todas as mulheres.

Nenhuma mulher deve ser impedida de ser mãe. E nenhuma mulher pode ser obrigada a ser mãe. Por uma política que reconheça a autonomia das mulheres e suas decisões sobre seu corpo e sexualidade.

Pela defesa da democracia e do principio constitucional do Estado laico, que deve atender a todas e todos, sem se pautar por influências religiosas e com base nos critérios da universalidade do atendimento da saúde!

Por uma política que favoreça a mulheres e homens um comportamento preventivo, que promova de forma universal o acesso a todos os meios de proteção à saúde, de concepção e anticoncepção, sem coerção e com respeito.

Nenhuma mulher deve ser presa, maltratada ou humilhada por ter feito aborto!

Dignidade, autonomia, cidadania para as mulheres!

Pela não criminalização das mulheres e pela legalização do aborto!

Frente nacional pelo fim da criminalização das mulheres e pela legalização do aborto.

Para assinar este manifesto clique no link:

http://www.petitiononline.com/abortole/petition.html

Presídio Zoo – Cólera

Posted in 1 on Setembro 26, 2009 by rodrigo77

pro destemidxs - colera_main

“Bem-vindo ao Zoo,
Presídio Zoo
A jaula foi feita pra você
Muitas crianças, vais divertir
Porcarias elas vão te dar

Da sua espécie, nada sobrou
Você é raridade e vale um milhão
Veja os papéis, você é meu
Veja os papéis, você é meu

O erro do homem é gananciar
O que não se vende ele sempre quer comprar
É ilegal, comprar, vender
O animal não pertence a você
É ilegal, comprar, vender
O animal não pertence a você

Animais não fazem guerras
Animais não destroem selvas
Animais não constroem bombas
Animais não poluem o ar
Animais não pertencem a ninguém
Animais não matam por prazer
Animais pode ser você
Animais “A”, “A”

Zoona, Presídio Zoo
Onde exponho você
Pra te amanssar, te controlar
E por dez milhões te vender

Seria bom, se os animais
Pudessem contar com todos vocês
Pra apoiar, pra defender
O seu direito de viver
Pra apoiar, pra defender
A liberdade de ser

Animais não fazem guerras
Animais não destroem selvas
Animais não constroem bombas
Animais não poluem mares
Animais não pertencem a ninguém
Animais não matam por prazer
Animais pode ser você
Animais a-ni-mais

Pense se fosse você…”

A impressão geral que se tem de Zoológicos, é de que se trata de um lugar apropriado para animais, buscando combater a extinção de algumas espécies, tratar de animais que sofreram algum acidente/trauma, etc.

Ao meu ver, é um local apropriado para humanos. Um passeio ao ar livre, desfrutando das belas imagens propiciadas por diversas espécies indevidamente enjauladas.

pro destemidxs - enjaulados (3)

Bom, por que acho negativa a existência de zoológicos:

Sabemos que os animais são guiados, ao mesmo tempo que somos por nossa suposta inteligência e capacidade de adquirir informações e conhecimento, por seus instintos naturais de sobrevivência. Na cultura humana, é comum vermos a incondicional e desesperada luta contra a morte. Tornou-se, desde não sei quando, até os tempos de hoje, pelo menos em sociedades como a nossa, cultural, o culto a não-morte [humana] (mesmo que isso não signifique necessariamente, vida). Longe da civilização e da proteção e conforto relativo que ela nos traz, vemos que na natureza, prevalece a lei da crueldade. Não da crueldade gratuita e sádica dos seres humanos, mas das leis da natureza mesmo. Cadeia alimentar, prevalecer dos mais fortes, exposição constante ao perigo aos excessos e às escassezes.

Em celas de zoológicos, eles deixam de contar com o maior bem que possuem, que seriam seus respectivos instintos, também trancafiados e ao contrário do que dizem ter como objetivo, essa preservação, do jeito que passam a sobreviver, não é possível, o que resulta em animais aparentemente desistentes da VIDA. Em maiúsculo, pois não me refiro ao sentido vida-respiração, mas sim ao sentido pleno. Vemos animais quando não estressados: nervosos, aborrecidos, aparentemente tristes, enfim, também não me soa legal ficar comparando nossas expressões de sentimentos e sensações ao deles, por mais que possa parecer semelhante.

Escrevi uma letra há um tempo, expressando justamente essa inconformação: além de fodermos nossas próprias vidas, ainda fazer com o que “resiste e sobrevive de maneira natural”. Ou resistiria e sobreviveria, não fosse por nossa intromissão tamanha.

“Por que carregar um fardo causado pela insensibilidade humana? Desarmonizando formas de vida que resistem e sobrevivem de maneira natural… Testes em laboratórios, carnificina alimentar, instintos aprisionados nas plantações de animais.”

Apropriação da vida dos animais – além de não ser nosso direito, uma absurda falta de consciência, percepção. “Pense se fosse você”, se vivêssemos a todo tempo com essa possibilidade, de termos nossas vidas além de já controladas, completamente escravizadas (como ainda vivem, milhares ou milhões). Assim como fazem num zoológico, podemos(!!!) colocar um pássaro na gaiola e pendurar, como se fosse um quadro animado, ou colocar à venda em um pet shop, jogando fora caso adoeça ou morra, como se fosse um saco de ração estragado.

pro destemidxs - animais_enjaulados

Poderia me estender bastante falando sobre os diversos malefícios que causamos direta ou indiretamente (não importa, o sofrimento está sempre presente em ambas as formas), mas iniciarei inspirado apenas em fazer um paralelo com a letra. Nos abrangemos mais nos comentários/discussões… inté!